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“O Auto da Compadecida” é obra com inúmeras portas de entrada

O maximalismo da passagem cênica oferece pontos muito interessantes no transcorrer da apresentação. Não importa o que ocorrerá, mas como ocorrerá? E o que surge não é apenas a reprodução, mas, sobretudo, uma homenagem e um importante apontamento social.

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Foto: Renato Pagliacci

Por Leonardo Talarico

Tarefa árdua adaptar para o Teatro a obra de Ariano Suassuna: “O AUTO DA COMPADECIDA”. 

Além das dificuldades decorrentes da complexidade da própria obra, há inúmeras adaptações realizadas. 

Existe, portanto, pouco espaço à inovação. 

Entretanto, o grande acerto da montagem está fincado em três relevantes pilares: a generosidade de um texto literário com muitas portas de entrada à encenação; a força de linguagem cênica da união inédita entre o diretor Gabriel Villela e o Grupo Maria Cutia; o fato de “O AUTO DA COMPADECIDA” ser obra atualizada pela maestria do seu autor e o constante descaso político junto ao povo brasileiro. 

Tudo muito bem transcorre mediante a competência de todos os envolvidos. Da generosidade literária de Suassuna à multiplicidade artística dos encenadores.

O recorte escolhido na montagem ganha força não apenas pela lembrança cinematográfica junto ao público, mas pela aplicação da TOTAL ARTES no percurso do espetáculo.

Suassuna “permite” a omissão do seu próprio texto. 

Tudo é símbolo de tudo. E isso oferece inúmeras portas de entrada à direção. 

A peça não espera pelo seu público. Fatos e símbolos surgem e recebem o pulo da plateia para dentro de um trem festivo e crítico em movimento para todos realizarem o fazer teatral em conjunto.

A dramaturgia avança escorreita, seja pela escolha dos trechos literários, como também pela larga linguagem artística oferecida à plateia. 

Atores e atrizes generosas “morrem na coxia” para fazer o todo performar. Tudo é minuciosamente posto em favor do esclarecimento. Obra horizontal e múltipla que invoca batimento crítico, político, artístico e sarcástico. 

Ocorre uma carnavalização do Teatro com propriedade. 

É a força do “Bando da Arte”. 

 

As inserções políticas contemporâneas unem o público em opinião e geram frescor. É obra de Povo que se junta “despretensiosamente” e organiza o mundo. 

Não é espetáculo de ator e de reflexão silente. 

É comício festivo na sua melhor definição. 

Todas as competências circunscritas ao Teatro estão presentes em prol da mesma obra. É o coletivo!

O cenário e adereços são inventivos, orientados à percepção e ao deslocamento dramatúrgico, com relevante aporte estético. 

Os figurinos (barroco, circense, popular) são primorosos e seguem iguais pretensões. A maquiagem (máscaras) remonta as origens teatrais e enlaça a unidade antropológica do grupo Maria Cutia ao vigor imagético de Villela. 

A direção de movimento é cirúrgica e não permite descanso. Sigamos o cortejo. Todos precisam deixar sua contribuição. Assim como no circo, no teatro de rua, no grito social abafado pela classe dominante. 

A pulsação da obra é constante e ninguém desce.

Todos alinhados em estado de relevância: Suassuna, por abrir portas de seu livro para mais uma linda adaptação; Villela, mais uma vez, pelo “espetacular visual” das suas obras e Maria Cutia, por deixar evidente ser a rua todo lugar. 

O desenho de luz opera cirúrgico na pontuação frenética dos elementos escolhidos desde a saída do trem.

A trilha sonora – viva e ao vivo – auxilia na renovação da obra e impõe boas andanças críticas. 

O maximalismo da passagem cênica oferece pontos muito interessantes no transcorrer da apresentação. Não importa o que ocorrerá, mas como ocorrerá? E o que surge não é apenas a reprodução, mas, sobretudo, uma homenagem e um importante apontamento social.

Todos os envolvidos mexem na obra com mãos de respeito.

Muito importante constatar a presença cômica no seu papel originário, qual seja, deflagradora crítica.

Tudo nessa festejada peça teatral possui duas músicas na cabeça: uma está focada na contação direta da história por meio de trejeitos de energia vegetal (na linha de Suassuna) e outra atenta aos aspectos simbólicos capazes de nos conectar com enorme vigor até o término da passagem cênica. 

Todos assentam os espaços geográficos para nos manter na história, mas (quando menos se espera) lançam vetores para explorarmos materiais, performances, cores dentro de uma estrutura poética. 

Uma catarse! 

Ficha técnica: 

Texto: Ariano Suassuna

Concepção e Direção Geral: Gabriel Villela

Com: Grupo Maria Cutia de Teatro

Elenco:

Leonardo Rocha – João Grilo

Hugo da Silva – Chicó e Severino do Aracaju

Mariana Arruda – Mulher do Padeiro e Nossa Senhora Compadecida

Dê Jota Torres – Palhaço, Padeiro e Manuel (Nosso Senhor Jesus Cristo)

Thiago Queiroz – Sacristão

Marcelo Veronez – Padre João e O Diabo

Polyana Horta – Antônio Morais e O Bispo

Direção Musical: Babaya, Fernando Muzzi e Hugo da Silva

Preparação Vocal: Babaya

Assistente de Direção: Lydia Del Picchia

Cenário e Figurino: Gabriel Villela

Assistente de Figurino: José Rosa

Coordenação do Ateliê Gabriel Villela: José Rosa

Pintura de Arte: Rai Bento

Iluminação: Richard Zaira

Desenho Sonoro e Operação de Som: Vinícius Alves

Fotografia: Tati Motta

Produção: Jorge Costa e Huemara Neves

Produção Local: Ana Sol

Coordenação de Comunicação: Rizoma Comunicação & Arte (Beatriz França)

Redes Sociais e Tráfego: Rizoma Comunicação & Arte (Letícia Leiva)

Design Gráfico: Cintia Marques

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Onde: Teatro Arena – Sesc Copabana/RJ

Quando? 27, 28 e 29 de março. 

Sexta e sábado – 20h.

Domingo – 18h.

Ingresso: R$ 10,00 (credencial plena), R$ 15,00 (meia entrada para casos previstos por lei, professores e classe artística com registro profissional) e R$ 30,00 (inteira).

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