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“Medea”, de Séneca, ganha nova montagem de Gabriel Villela e estreia no Sesc Consolação

Com rara encenação no Brasil, a tragédia romana retorna aos palcos em uma montagem que expõe a fúria humana, o etarismo e a violência do nosso tempo, com estreia em 29 de janeiro de 2026, em São Paulo.

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Foto: João Caldas

Por séculos afastadas dos palcos sob a ideia de que sua violência extrema só poderia ser suportada na leitura, as tragédias do filósofo romano Séneca voltam a ganhar corpo e voz no teatro contemporâneo. “Medea”, na versão de Séneca, é o novo projeto do diretor Gabriel Villela, que estreia no dia 29 de janeiro de 2026, no Sesc Consolação, em São Paulo, com temporada até 8 de março.

Escrita cerca de quatro séculos após a versão clássica de Eurípides, a Medea de Séneca revisita o mito da mulher que assassina os próprios filhos como vingança por ter sido abandonada por Jasão. No entanto, a tragédia romana amplia o debate ao deslocar a responsabilidade da violência dos deuses para os próprios seres humanos, trazendo à cena temas como a desmedida da fúria, a ira, a vingança e questões sociais ainda urgentes, como o etarismo e o silenciamento feminino.

Na montagem, a ruptura entre Medea e Jasão revela uma lógica social que descarta mulheres à medida que envelhecem, tema que ecoa de forma contundente nos diálogos. A personagem-título é interpretada por três atrizesRosana StavisMariana Muniz e, em participação especial, Walderez de Barros, ressaltando as múltiplas camadas dessa figura trágica. O elenco conta ainda com Jorge Emil, Claudio Fontana, Plínio Soares, Letícia Teixeira e Marcello Boffat.

Segundo Gabriel Villela, a versão de Séneca apresenta diferenças marcantes em relação à tradição grega. “Para começar, é mais curta e muito mais violenta. De modo geral, suas tragédias ampliam o que chamam de desmedida: a fúria, a ira, estão no centro de tudo o que escreve”, afirma o diretor. Ele destaca ainda que, em Séneca, o conflito interno de Medea é mais explícito, construído em uma escalada dramática que conduz de forma implacável ao crime final.

Filósofo do período romano e preceptor do imperador Nero, Séneca constrói uma Medea estrangeira, traída, politicamente silenciada e condenada ao exílio. Sua revolta reverbera em debates contemporâneos sobre as violências contra as mulheres e contra a própria natureza. Na encenação de Villela, essa dimensão é central: Medea devolve ao mundo a fúria acumulada pelo desprezo de Jasão e pela sentença de Creonte, rei de Corinto. A natureza surge como narradora trágica, reagindo às atrocidades cometidas pelos homens.

“O texto é primoroso e parece importante hoje apontar a relação dele com a violência que ronda o nosso dia a dia. Nós nos confrontamos com a barbárie o tempo inteiro — na política, nos assassinatos festivos, na internet que julga e sentencia. Nos tornamos o vírus capaz de acabar com o planeta”, observa Villela. A equipe de criação ressalta ainda a força retórica de Séneca e sua habilidade em unir palavra e imagem como potência cênica.

A cenografia, assinada por J. C. Serroni, cria um espaço duplo que dialoga com o circo-teatro mambembe e o palácio de Creonte. Os figurinos, criados pelo próprio Gabriel Villela, são um dos destaques da montagem: são 27 peças que se sobrepõem em tecidos e elementos extraídos da natureza do cerrado mineiro, reforçando o diálogo entre corpo, mito e paisagem.

Séneca e o Estoicismo

Expoente do Estoicismo, Séneca defendia a igualdade entre os homens, rejeitava a escravidão e as distinções sociais, além de valorizar o autocontrole, a liberdade interior e a responsabilidade ética. Para o filósofo, a moderação e a serenidade diante das adversidades eram caminhos para atravessar o sofrimento humano.

“Todas as tragédias que ele escreveu são formas de apresentar essa filosofia”, explica o diretor adjunto Ivan Andrade. “Na tragédia grega, as desmedidas eram atribuídas aos deuses. Séneca coloca a responsabilidade no ser humano. Sempre há um momento em que o personagem pode recuar — mas escolhe não fazê-lo”, completa.

Gabriel Villela

Formado em Direção Teatral pela Universidade de São Paulo, Gabriel Villela é diretor, cenógrafo e figurinista. Iniciou sua carreira profissional em 1989 e, desde então, dirigiu mais de 50 espetáculos, com circulação em festivais nacionais e internacionais. Ao longo da trajetória, recebeu importantes prêmios, entre eles Molière, Sharp, Shell, APCA, APETESP, além do Prêmio Governador do Estado de São Paulo.

Sinopse

Abandonada por Jasão, que decide se casar com Creúsa, filha do rei Creonte, a feiticeira Medea vê ruir não apenas seu matrimônio, mas também sua identidade. Movida pela fúria e pela vingança, ela envia presentes envenenados à rival, provocando a morte da família real. Para atingir o marido no que ele tem de mais precioso, Medea assassina os próprios filhos.


Serviço

Medea
Lol Sesc Consolação – Teatro Anchieta
Rua Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque – São Paulo (SP)
Informações: (11) 3234-3000

Temporada: 29 de janeiro a 8 de março de 2026
Horários: Quintas, sextas e sábados, às 20h | Domingos, às 18h
Sessões especiais:
• 14/2 (sábado), às 18h
• 26/2 e 5/3 (quintas), às 15h

Ingressos:
R$ 70 (inteira) | R$ 35 (meia) | R$ 21 (credencial plena)

Venda on-line a partir de 20/1, às 17h, em centralrelacionamento.sescsp.org.br e no App Credencial Sesc SP
Venda presencial a partir de 21/1, às 17h, nas bilheterias do Sesc SP

Duração: 80 minutos | Lotação: 280 lugares | Classificação: 16 anos

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