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Festival de Curitiba

Entre a cegueira e o excesso: um ensaio festivo sobre Saramago

Montagem do Grupo Galpão aposta na leveza e na comicidade para atravessar a obra de Saramago e transforma a dor em experiência palatável.

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Foto: Fernando Lara

Por Leonardo Talarico

Assisti ao espetáculo (um) ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, encenado pelo Grupo Galpão, no Festival de Curitiba, mostra Lúcia Camargo.

Adaptar Saramago é tarefa árdua. Inúmeras camadas densas sobre a realidade humana foram esculpidas pelo renomado escritor português. O labor é mais intrincado quando a obra escolhida é o “Ensaio Sobre a Cegueira”. Desumanização, anonimato, moral, perda da razão e violência (dentre outros) são apresentados por meio de fatos e símbolos contundentes. Na versão cinematográfica de Fernando Meirelles, à guisa de exemplo, pessoas deixaram as salas de cinema com náuseas.

Mas o próprio nome escolhido pelo renomado Grupo Galpão afasta pretensão de totalidade da obra literária. É (um) ENSAIO. Logo, há outros. Outros, inclusive, dentro do próprio Galpão.

A festejada encenação não se desvirtua do tema, mas o faz atravessar o palco de forma palatável. O recurso da multiplicidade de funções e a “galhofa” constante controla a possível entrada no porão existencial. O Grupo Galpão só não “tira o pé” na deslumbrante cena da “marcha das mulheres”.

Na obra de Saramago, uma epidemia de cegueira assola a cidade, privando habitantes de enxergar. Tudo começa com um homem no trânsito, repentinamente cego. A condição imediatamente se espalha e coloca à prova a moral, a ética e as noções coletivas.

O livro dói. O filme de Meirelles dói. O espetáculo dispersa quase todas as dores decorrentes do conflito e das condições humanas. Mesmo sem fugir do tema.

Portella não erra. Fez uma escolha. E isso merece respeito. Discordar é condição humana de estar junto.

A dispersão ocorre pelo fato da direção utilizar todos os recursos artísticos do próprio elenco e de linguagem (total artes) que dilui a dor do fato. O elemento cruel é dissolvido pela ambiência “festiva” da encenação.

O Ensaio é Sobre a Cegueira, mas o público enxerga “tudo, muito e demais”. E isso afasta a percepção das mazelas desejadas por Saramago.

Não há certo ou errado. Talvez haja. Mas há escolhas. E o Grupo Galpão é deveras competente. E não de hoje.

O público se depara com poucas marcações de silêncio e pausa. As personagens no espetáculo – cegas – enxergam em demasia (assim como o público), movimentam-se em demasia, fazem coisas em demasia e possuem controle em demasia.

O foco do público acaba disperso e sem tempo à compreensão e maturação do sofrimento.

O ensaio possui tanta pulsação que parece a vida hodierna, onde se perde a capacidade de se recolher em abatimento diante das maldades decorrentes das circunstâncias.

O espetáculo não assenta no verbo e não entrega à plateia tempo de sofrimento. Todas as possibilidades de mobilidade artística são oferecidas em contraponto à literatura mencionada.

Quando surge a possibilidade reflexiva da maldade humana, a “galhofa” constante não deixa o público sofrer (perceber).

Isso não significa má condução cênica. É uma escolha. E a direção é muito exitosa na sua pretensão.

O público não sai em marcha fúnebre. Sai do Teatro em cortejo festivo de esperança. Nietzsche não restou convidado.

A crueldade humana só está na procissão das mulheres (deslumbrante). Talvez seja o instante de silêncio. E é tão lindo que não tem como não especularmos haver outros momentos silentes.

Rodrigo Portella, portanto, abriu uma caixa de ferramentas artísticas, removeu o impacto do silêncio, a crueldade simbólica da obra e a possibilidade de gerar repulsa no público.

A comicidade ininterrupta não abriu espaço para refletirmos (em profundidade) sobre os limites desumanos.

O espetáculo restou muito palatável. Todos saem felizes com certo grau de emoção dispersa. É um enterro festivo.

A direção de movimento não caminha para um destino. Segue desenfreada para gerar composições estéticas e dispersivas.

O figurino é meramente utilitário. O cenário é composto por mobiliário em ritmo de ensaio.

O desenho de luz mescla lindos recortes dramáticos com luz de serviço que rompe acesso ao simbólico. Provoca uma interrupção do jogo teatral.

Os adereços seguem a estrutura do figurino. A trilha sonora mostra competência, possui instantes de costura dramática, mas segue a pulsação do espetáculo.

A relação da plateia no palco (pessoas vendadas) gera duas boas imagens. No mais, excesso.

Os atores são competentes e possuem unidade. Todos fazem o mesmo espetáculo.

Na linha da minha fala anterior, o presente ensaio carnavalizou o Teatro. Ou seja, quando uma escola de samba desfila na avenida, há muita dor envolvida, mas a pulsação do Carnaval distrai a crueldade da sobrevivência cotidiana.

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