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Crítica Teatral

Da beleza do aqui

Ao assistir essa bela encenação, querendo ficar ali, me divertindo com o texto rápido, crítico e gostos, talvez a coragem de se fazer teatro em tempos tão assustadores em São Paulo, seja o lugar melhor que já estamos ocupando.

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em

Foto: Caio Oviedo

gabriel m. barros

​Terminou neste domingo, dia 12/04, a temporada de Coragem – um lugar melhor do que aqui, e o meu desejo é que retomem nova temporada logo! 

​O espetáculo da DeSúbito Cia, que completou dez anos em 2025, marca o fim de uma trilogia com as peças Afeto, Raiva e agora a Coragem, todas elas têm uma frase que as sintetiza, de alguma forma. Dessa trilogia ficou faltando da minha parte assistir Afeto, porém as outras duas me ganharam bastante, sobretudo esta última. 

O texto é assinado pela Carla Zanini e a direção por ela e Ricardo Henrique, que conseguiram um feito raro no teatro que é de manter um texto dinâmico, engraçado, ao mesmo tempo que tenso e incerto, e o feito notável de construir silêncio, em tempos que qualquer espaço que pode produzir uma inquietação no público é cortado por alguma luz faiscante, uma música dançante.

A própria escolha da dramaturgia de ir para o insólito gera o humor e também a inquietação. Bebendo de uma tradição que vem do surrealismo, que teve força imanente no teatro do absurdo, mas também de uma tradição da literatura latina com o seu realismo mágico, a peça encena uma história sobre quatro mulheres num hospital público, uma delas faz aniversário, outra era uma funcionária regular, a terceira uma profissional afastada (mas que precisa retomar o trabalho, mesmo de licença devido a demanda excessiva), e a última personagem era uma banqueira despedida, filha da aniversariante e companheira da funcionária regular.

As atuações de Jane Fernandes, Lucelia Sergio, Noemi Marinho e Samanta Precioso são notáveis. Divertidíssimas em cena, não só seguram a atenção do público, mas os envolve tornando partícipes do caos hospitalar. Destaco a atuação de Marinho, que faz a funcionária de licença médica, toda desbocada e hilária.

Para além disso, enfatizo uma cena que me chamou a atenção: a personagem de Fernandes solicita para a de Precioso que lhe dê um pouco de drogas, já que estava doente, com problema cardíaco. Ressalta que acabou se tornando careta, porém quando jovem já usou bastante. Ambas se drogam e a personagem de Fernandes anuncia que estava comprando um sítio, que seria aberto pra todos e reflete como o concreto nos individualiza, nos separa. A filha, interpretada por Sergio, chega e chama à atenção da mãe tentando fazer com que a mãe se sente. Essa, vira para filha e para a nora e questiona o que eles sonham, ao responder que não sabia, a mãe devolve para a filha um “inventa”. E ainda, num monólogo fabuloso, com uma atuação incrível, Fernandes conclama as outras duas atrizes a chamarem os poderosos de “filhos da puta”. Assim, numa cena singela, com três mulheres gritando alternadamente “filhos da puta”, se tem uma rebelião que não altera estrutura nenhuma, mas que proporciona um descarrego, um alívio, e um encontro forte com o público. 

O insólito nesse cenário todo envolve um ovo que cai, não se sabe de onde, e nasce um urubu dali, que sai voando no mesmo dia. Também um menino que tenta se matar e cai não se sabe de quantos metros e sobrevivi. Por último, uma filha, que nem é enfermeira e opera a própria mão no corredor de um hospital e a mãe sai vivendo e sambando no terraço com o peito aberto. 

Ao assistir essa bela encenação, querendo ficar ali, me divertindo com o texto rápido, crítico e gostos, talvez a coragem de se fazer teatro em tempos tão assustadores em São Paulo, seja o lugar melhor que já estamos ocupando. Nesse sentido a DeSúbito Cia sabe acertadamente construir um lugar melhor que é também o aqui.    

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