Curitiba
“Conto de Farida” estreia em Curitiba e reflete sobre guerra, exílio e memória no palco do Teatro José Maria Santos
Espetáculo com dramaturgia de Luci Collin e direção de Eduardo Ramos aborda guerra, exílio e memória a partir da história de uma família síria, em temporada gratuita no Teatro José Maria Santos, com sessões acessíveis e oficina formativa.
Foto: Vitor Dias
Em março o Teatro José Maria Santos, recebe a estreia nacional do espetáculo “Conto de Farida”, em curtíssima temporada. Com dramaturgia de Luci Collin e direção de Eduardo Ramos, o espetáculo aborda os impactos da guerra e do exílio a partir da história de uma família, marcando o retorno de Luís Melo aos palcos paranaenses em uma narrativa sensível sobre as múltiplas diásporas contemporâneas. A entrada é gratuita e inclui sessões com acessibilidade.
Realizado pela AP da 13, com produção da Cardume Cultural, o espetáculo transforma em cena uma urgência do presente: a trajetória da família Farah ecoa a experiência de milhões de pessoas forçadas a deixar seus territórios em contextos de conflito e perseguição.
Segundo o diretor, a obra acompanha uma família síria dilacerada pela guerra, confrontada com escolhas extremas entre partir ou permanecer, preservar a memória ou buscar um futuro possível. “Entre silêncios, despedidas e gestos de resistência, a cena se constrói como espaço de escuta e testemunho, buscando lugares possíveis de existir em um cenário de colapso humanitário”, afirma Ramos.
A encenação tem como referência visual a exposição “Farida – Um Conto Sírio”, do fotógrafo brasileiro Maurício Lima, vencedor do Prêmio Pulitzer em 2016, que acompanhou por 51 dias a fuga de uma família de Alepo. A criação dialoga ainda com relatos reais dos artistas sírios Abed Tokmaji, Myria Tokmaji e Lucia Loxca, residentes no Brasil há mais de uma década e colaboradores diretos da dramaturgia a partir de suas vivências de exílio.
No palco, a história da família Farah revela o dilema de quem vê a guerra bater à porta: o conflito entre o apego às raízes e a urgência da sobrevivência em terras desconhecidas. Luís Melo interpreta o patriarca Khaled Farah, ao lado de Mayra Fernandes (Aisha), Ciliane Vendruscolo (Qamar) e Camila Ferrão (Jamile), que expressam diferentes perspectivas de uma família fragmentada pelo avanço do conflito.
A atmosfera de tensão é reforçada pela cenografia de Fernando Marés, com tons acinzentados e planos irregulares que evocam escombros e travessias incertas. O desenho de luz de Beto Bruel e Lucas Amado dialoga com a trilha sonora executada ao vivo sob direção musical de Edith de Camargo, com participação dos músicos sírios Abed Tokmaji e Lucia Loxca ao alaúde e em cantos tradicionais, ampliando a imersão do público na narrativa.
A aproximação entre Melo e o coletivo teve início durante a pandemia, quando o ator passou a acompanhar de perto os trabalhos do grupo. O vínculo se fortaleceu a partir de encontros no Campo das Artes e do convite para que ele atuasse como curador do festival Novos Olhares em 2025.
Para o ator, integrar uma produção curitibana que articula história, música e memória humana é motivo de emoção. Ele destaca o comprometimento do coletivo e o cuidado nos processos de criação contínua, elementos que, segundo ele, conferem responsabilidade e potência à experiência cênica.
A temática do espetáculo dialoga com um contexto global de deslocamento sem precedentes. Dados do ACNUR/ONU indicam que, entre o final de 2024 e o início de 2025, mais de 123 milhões de pessoas foram forçadas a se deslocar em razão de conflitos, perseguições e crises humanitárias, sobretudo em regiões como Sudão, Ucrânia e Gaza. Desse total, 83,4 milhões vivem como deslocadas internas e mais de 43 milhões como refugiadas; cerca de 40% são crianças e adolescentes, e 4,4 milhões de pessoas são apátridas. “Conto de Farida” transforma esses números em experiência sensível e concreta no palco.
A temporada é gratuita e inclui sessões com Libras nos dias 14 e 21 de março, às 20h, e audiodescrição no dia 20, no mesmo horário. O projeto prevê ainda a oficina gratuita de dramaturgia depoimental “Corpo em Guerra: Possíveis Caminhos para além do Êxodo”, ministrada por Eduardo Ramos, com inscrições a serem divulgadas no Instagram do coletivo (@apedatreze).
Serviço:
“Conto de Farida”
Apresentações: 13 a 15, 18 a 22, 24 a 26 de março de 2026
Terça a sexta, às 20h
Sábado, às 17h e às 20h
Domingo, às 11h e às 16h
Local: Teatro José Maria Santos
Tempo de duração do espetáculo: 1h20
Classificação etária: 14 anos
Especificações do espetáculo: Teatro
Acessibilidade:
Sessões com Libras: 14 e 21 de março (sábados, às 20h)
Sessão com audiodescrição: 20 de março (sexta, às 20h)
Entrada Gratuita: retirada uma hora antes na bilhete do teatro

