Festival de Curitiba
Azul: o tempo que não cabe no relógio
Azul nos convida a desacelerar. A respeitar o tempo do outro. A entender que desenvolvimento não é linha reta, e que o afeto não segue prazos.
Foto: Henrique Gonçalves
Por Vanessa Ricardo
Apesar de não ter frequentado o teatro desde muito pequena, guardo comigo a memória da primeira vez em que entrei no Teatro Guaíra. Foi em uma dessas idas com a escola. Não lembro qual espetáculo estava em cartaz, a memória falha nos detalhes, mas a sensação permanece intacta: aquele espaço imenso, quase sagrado. Quando somos crianças, tudo parece maior. Talvez porque o mundo ainda esteja em expansão dentro da gente.
Essa lembrança me atravessou enquanto assistia ao espetáculo Azul, no domingo de Páscoa (05 de abril), no auditório do Museu Oscar Niemeyer. Parte da programação do Guritiba, o braço do Festival de Curitiba dedicado às infâncias, com curadoria de Fabíula Passini, a montagem da Artesanal Cia de Teatro toca em temas delicados com uma leveza rara: o ciúme diante da chegada de um irmão e o desenvolvimento de uma criança atípica.
Desde a primeira cena, fiquei completamente vidrada. E não era só eu. Bastava um olhar ao redor para perceber adultos igualmente capturados pela cena, em silêncio atento, como se também revisitassem suas próprias infâncias. Azul tem essa potência: não se limita ao público infantil, ele atravessa.
A história é contada a partir do olhar de Violeta, que tenta entender o seu irmão “azul”, diagnosticado com TEA. E é nesse ponto que o espetáculo acerta com delicadeza: não há didatismo raso, há sensibilidade. Há escuta.
As máscaras dos pais, com estética de desenho animado e cores vibrantes, trazem um contraste interessante entre o lúdico e o emocional. Elas ampliam as expressões de forma quase exagerada, como se traduzissem sentimentos que nem sempre cabem nas palavras. Já os bonecos de Azul e Violeta aprofundam a dimensão poética da narrativa, e os movimentos dos atores e manipuladores não apenas conduzem a cena eles sopram vida. Há uma precisão afetiva no gesto, um cuidado no tempo de cada ação.
E talvez seja justamente sobre o tempo que Azul mais fala.
O teatro que emociona é aquele que entende que nem todo tempo é o do relógio. Criança não tem medo do tempo ou melhor, não vive sob a tirania dele. Cada um percebe o tempo de um jeito. Há quem viva o tempo de Cronos, marcado, apressado, mensurável. E há quem consiga existir no tempo de Kairós: o tempo do sentir, do agora que se expande, do coração.
Azul nos convida a desacelerar. A respeitar o tempo do outro. A entender que desenvolvimento não é linha reta, e que o afeto não segue prazos.
Talvez, no fim, o que o espetáculo nos diga com delicadeza e firmeza é que só existe um tempo possível: aquele que cabe em cada um.
E esse tempo, definitivamente, não se mede.

