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Festival de Curitiba

A força de uma mulher em fuga e o corpo que resiste em cena

Galli é uma das poucas atrizes que sustenta com primor a energia animal da antropologia teatral. Sua construção em camadas, sobrepostas por filigranas, e sua interpretação horizontal estão perfeitas.

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Foto: Annelize Tozetto

Por Leonardo Talarico

Assisti ao espetáculo UMA MULHER EM FUGA, no dia 11 de abril, no Teatro Guairinha (Mostra Lucia Camargo – Festival de Curitiba).

A dramaturgia absorve bem a literatura já conhecida, com uma adaptação capaz de atender às escolhas de montagem.

A narrativa acompanha Monique, mãe de Édouard Louis, em diversos momentos de sua vida: os casamentos marcados pela violência, a reconstrução da sua trajetória e a busca pela independência. Observamos também as andanças comportamentais do seu filho Édouard e a força invisível de uma sociedade misógina.

Como bem descrito, uma “história íntima gera voz política”.

Não é tarefa fácil quantificar as violências praticadas contra Monique. Uma sociedade bem estruturada apresenta formas muito sutis de desaparecimento do feminino.

Malu, a despeito do esforço de Tiago Martelli, faz da peça um monólogo, tamanha sua capacidade interpretativa expansiva.

Galli é uma das poucas atrizes que sustenta com primor a energia animal da antropologia teatral. Sua construção em camadas, sobrepostas por filigranas, e sua interpretação horizontal estão perfeitas.

Esclarecedora, dor posta em lugar nobre, desespero em contenção e explosão, despojamento físico digno daqueles que “morrem na coxia” para vir apenas com a personagem: um corpo em dilatação, oposição, contração, voz modulada e GESTALT.

Articula entre as energias mineral e animal, realiza expressões marcantes e demonstra que atriz não é apenas o que diz, mas o que pensa. Ritmo dramático e cômico dominados, em uma perfeita junção da fala lírica e épica.

Não bastasse, uma bateria provoca catarse.

Sobra pouco para Martelli. E o que resta é apresentado com algum esforço e máscara. É visível o esforço para realizar o jogo teatral — um ator que ainda não está à vontade.

E isso não significa demérito. Significa tempo.

O desenho de luz atende às necessidades da direção e se apresenta com força estética e simbólica.

O figurino é utilitário por vezes e simbólico por outras. Cumpre seu compromisso com a peça.

O cenário é muito bonito, atende à narrativa, e a cena da bateria é um deleite. Minha única dúvida é sobre a volumetria: o tamanho da mobília não é capaz de reduzir Malu Galli, mas soa desproporcional. Apenas uma simples opinião; nada altera o resultado.

A trilha sonora serve bem à obra.

Aliás, todos os labores envolvidos estão voltados a contar o mesmo espetáculo. A peça é cuidada com primor.

O único a destoar um pouco é Martelli. E não se trata de aferição sobre ser ou estar bom ator. Significa dizer que Malu Galli possui uma personagem que não deixa esperar.

Admiro sua coragem e tenha meu respeito. Caso deseje um humilde conselho: corra muito atrás dessa mulher chamada Galli e dessa mulher chamada Inez Viana. Corra até perder o pulmão. Conseguirá estar ao lado delas? Nunca. Quase ninguém consegue.

Mas corra.

Sua linda escolha te obriga a correr, sentir dor, “ser um poeta menor”. Isso não é demérito. Sua luta é correr para oferecer a Malu um parceiro de cena cada vez melhor.

Parabéns a você e a todos envolvidos nesse espetáculo de vida.

Tive o prazer de ouvir Inez Viana fora da coletiva de imprensa. No brilho dos seus olhos — depois de tudo que já entregou nos palcos — está o significado da luta.

Linda vida para esse espetáculo.

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