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Teatro

A dança no escuro com “Depois do Silêncio”

A companhia Os Buriti transforma a trajetória de Helen Keller em uma experiência sensorial e bilíngue, num espetáculo onde a dança é linguagem, presença e reconexão.

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em

Foto: Diego Bresani

Por Tacy

Não lembro a última vez que uma peça me pegou “de jeito” como na quarta-feira (25), no Teatro Poeira. Era o último dia de temporada de “Depois do silêncio” e eu estava na segunda fila, com a expectativa lá em cima — principalmente pela fama da companhia Os Buriti, com mais de trinta anos de palco. Terceiro sinal: celular em modo avião. Escuro e silêncio. E, por sessenta minutos, assisti a um espetáculo lindo, pulsante e sensível — da primeira à última imagem. A história de Helen Keller, jovem estadunidense surda e cega, é o fio condutor da trama que, além de falar de inclusão real e visibilidade, também nos ensina sobre o poder da comunicação e o valor da educação. A companhia traz à cena um tema social premente, genialmente potencializado pela dança, pelo corpo e pela emoção. No final, quando saí, vi o burburinho do público comentando entusiasmado os melhores momentos e pensei: “vale uma resenha”. Portanto, leitores, permitam-me partilhar impressões destaprimorosa performance com vocês. 

Sob a direção de Eliana Carneiro e RogeroTorquato, a peça traz em cena o elenco compostopor Naira Carneiro (Helen Keller), Camila Guerra (Annie Sullivan) e Renata Rezende, atriz surda que interpreta a si mesma. Três atrizes criadoras, responsáveis pelo roteiro, dramaturgia e figurino. Apeça inicia com um zumbido, uma espécie de apito, levemente estridente e altamente perturbador. Tive de tapar os ouvidos em alguns momentos. A seguir,vieram as imagens abstratas no telão, de autoria do artista gráfico Gabriel Guirá. Um foco de luz no chãodo palco nos revela uma figura inusitada: um corpo embalado dentro de uma bolha plástica. Aos poucos, a superfície rugosa se desfaz e, dentro dela, o corpo que antes movia-se deitado e letárgico, agora se levanta e está enérgico, pulando, socando e empurrando a camada que o envolve. A música cresce junto com os movimentos. Sob a cenografia de Rodrigo Lélis e design de Gilberto Filho, o clímaxse resolve na completa transição da cena para o telão, agora tomado pela forma parecida com umanoz. Baseado nas cartas da professora Annie Sullivan trocadas com sua mentora Sophia Hopkins,o roteiro de “Depois do Silêncio” começa com estaprofessora irlandesa chegando para ser a mediadoraresponsável por ensinar a língua tátil de sinais, que dá a Helen a possibilidade de nomear, pensar e estar com o outro. A narrativa compartilha a exaustão de Annie em vários momentos, uma vez que Helen era reativa e oferecia muita resistência.Sua conexão com a palavra “água”, que vinha de antes da surdez e da cegueira, foi a chave para que a criança enfim encontrasse uma porta de entrada entre corpo e linguagem. Uma epifania material, quase tátil, como se o sentido precisasse de um elemento “vivo” para ser atravessado. Uma cena comovente, onde a água funciona como um rito de passagem e a dança como um trajeto de reconexão: do “mundo apartado” para um mundo novamente habitável. Não pude deixar de me emocionar nessa hora.

Um olhar superficial pode pensar que Depois do Silêncio mora no silêncio dos gestos e dosmovimentos. Mas o que vi foi a cinética pulsante que conduz os corpos sincopados sobre o palco,recheados de palavra e intenção. Quando Camila Guerra está em cena, ela transita entre português eLibras. Os diálogos em que ela fala com a plateia utilizando as duas línguas simultaneamente, dãouma pista de como a língua de sinais não acontece somente com a função de traduzir. A atriz RenataRezende traz sua biografia — como gostava de cantar e tinha a voz bonita antes da doença que a acometeu jovem. Sua cena amplia a experiência para além da representação, pois a presença PcDtambém compõe o palco. É quando entendemos que se trata de um espetáculo que muda a ética do olhar, porque muda a própria materialidade do encontro entre quem faz e quem assiste. Desloca-se aacessibilidade do “apêndice” para o centro da linguagem cênica, o que faz com o público PcDpresente sinta-se verdadeiramente validado e incluído, algo muito raro em espetáculos teatrais. 

As coreografias de Eliana Carneiro sustentam uma força e beleza que trazem sofisticação técnica ao trabalho. Ela própria o descreve como uma pesquisa do corpo como linguagem e de uma “escuta profunda do outro”, defendendo que o espetáculo não trata de ausência de som/palavra, mas sim da potência dos encontros e da comunicação para além da oralidade. Sob a impecável trilha sonora original de Diogo Vanelli e desenho de luz de Camilo Soundant, a produção dacompanhia Os Buriti é uma representaçãoencantadora. Em vez de transformar a diferença em metáfora, transforma a comunicação em matéria: água, tato, gesto, mãos, corpo. E, no fim, a lição que fica é quase incômoda de tão atual: não existe inclusão real sem educação real — e não existe educação real sem linguagem compartilhada.Porque comunicar é existir e aprender é uma forma de renascer.

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