Crítica Teatral
Tem o absurdo na sala
De modo geral, o espetáculo é interessantíssimo, engraçado e ao mesmo tempo coloca em novos relevos a crise de criatividade que está posta, sobretudo em tempos de paciência curta e indisposição para histórias mais longas, com a vitória da segunda tela, ou melhor, de um celular, que não nos conta história nenhuma, mas fragmentos disformes de vários acontecimentos.
Por gabriel m. barros
Estou em Portugal para estudos. Nas horas vagas exploro a cidade de Lisboa e tento mergulhar nessa cultura que tem o mar como uma grande referência para pensar a própria projeção do país no mundo. Enfim, desse processo, calhou de no último sábado ir ao Teatro do Bairro Alto (TBA), espaço cênico que eu ainda não conhecia. Era a última apresentação da peça Os Antípodas, texto de Annie Baker, realizado com a direção de João Pedro Mamede e atuação do grupo Os possessos.
Um grupo de escritores, roteiristas ou algo assim, estão reunidos e precisam elaborar uma história. O espaço criativo ocorre numa sala ampla, que é o palco, tendo o público dos dois lados. Ao centro uma grande mesa, que embaixo tem compartimentos onde, durante o espetáculo toda sorte de coisas, comida principalmente, é tirada. Compondo essa cenografia há cadeiras, boa parte do espetáculo quase todos os atores ficam sentados e, literalmente, fazem uma dança das cadeiras. Nesse sentido, destaco a movimentação dos atores que vão e voltam com as cadeiras, trocando de lugar ou se movendo com a mesma, inclusive mudanças de tempo foram demarcadas a partir dessa movimentação.
Desse espaço amplo, lugar de trabalho e esboço de criatividade, as personagens devem criar histórias, para isso devem partir das suas próprias histórias a fim de construir um enredo que interesse a alguma coisa que não se sabe bem o que é. E aqui reside a grande graça do texto e das interpretações postas: como contar uma história que seja relevante, quando se tem a impressão que todas as boas histórias já foram contadas ou se cada história tem um pouco da outra que é de conhecimento quase que geral? Buscando dar conta disso a peça cria um tempo em suspenso: as histórias que se contam não dão conta da novidade e sequer daa possibilidade de se conhecer quem as narra. Parece que a premissa do texto de Walter Benjamin, sobre o declínio do narrador, estava certo.
Contudo, eles precisam entregar um produto final. Com a pressão do tempo; o sumiço-demissão de um funcionário que contou sobre seu maior constrangimento, que fora não pegar uma galinha (aliás, cena extremamente constrangedora e, por isso mesmo, engraçadíssima); a ausência do chefe, demonstrando que o grupo estava em uma verdadeira crise; e a solicitação de que os funcionários permaneçam na sala até que se crie o tão almejado texto, abre espaço para que uma explosão de sentimentos aconteça e que o non sense entre em ação.
De histórias frágeis da vida das personagens se passa a uma espécie de delírio que se vai tornando coletivo. Nesse aspecto, o texto de Annie Baker, bem como a direção assumida, não receiam de esticar a corda entre o real e o absurdo, demonstrando que eles fazem fronteira, mas que também se olhados muito de perto podem levar a perdição. O texto estica, e no momento que se parece cair em um lugar cansativo, o non sense e o abrupto surgem como uma resposta instigante e exigindo dos atores também esse frenesi.
De modo geral, o espetáculo é interessantíssimo, engraçado e ao mesmo tempo coloca em novos relevos a crise de criatividade que está posta, sobretudo em tempos de paciência curta e indisposição para histórias mais longas, com a vitória da segunda tela, ou melhor, de um celular, que não nos conta história nenhuma, mas fragmentos disformes de vários acontecimentos.

