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Crítica Teatral

Dobrar o infinito: estar em cena

Em cartaz no Sesc Ipiranga, Comunhão e Nada é suficiente revelam a potência transformadora de Lucia Bronstein e Luisa Micheletti, que transitam entre a delicadeza da comédia romântica e a tensão dramática em duas montagens do dramaturgo canadense Daniel MacIvor.

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Foto: Claus Lehmann

Por gabriel m. barros

A beleza de um corpo em cena: infinitas possibilidades. Quando se aumenta, dois corpos, por exemplo, é o infinito dobrado. No fazer cênico, que mesmo sendo apenas uma figura no palco, sempre há um conjunto de pessoas compondo esse acontecimento, daí essa ideia de que o infinito tem se desdobrado constantemente, talvez seja por isso a eternidade do fazer cênico, quem sabe. 

O fato é que mesmo o texto sendo o mesmo, os gestos e ações também, todos os dias, e isso são os atores que assinalam, alguma coisa nova, uma dobra no tempo, um novo significado, enfim, cada dia é único. Teatro como poeira, imaterialidade e algo que perdura para além de nós mesmos. 

E quando as atrizes estão encenando dois espetáculos no mesmo dia com um intervalo de 15 minutos entre as duas? É o que acontece com Lucia Bronstein e Luisa Micheletti, que estão na penúltima semana em cartaz com as peças Comunhão e Nada suficiente no Sesc Ipiranga. As duas assinam a tradução dos textos, que são do dramaturgo Daniel MacIvor, contando com direção dupla de Pedro Bricio e Susana Ribeiro. 

Fiz o preâmbulo para discorrer sobre versatilidade, e principio pelos dois textos de MacIvor, que demonstramtambém a versatilidade do autor: em Nada é suficiente se tem uma comédia romântica, bem ao gosto dos anos noventa, marcando os desencontros e reencontros nesse eterno retorno dos amores inesperados e que são definidores. Com doçura duas mulheres vão se aproximando, descobrindo a sexualidade e a alegria da partilha da companhia uma da outra. Já em Comunhão o tom é completamente outro, sério, irônico, crítico e em alguns momentos ácido, tocando em várias temáticas, como a terapia, relação familiar, adoecimento, extremismo religioso, enfim uma gama de temáticas numa direção completamente outra. 

Lucia e Luisa estão nas duas peças, mas não são as mesmas, se transformam em outras, numa atuação que nos faz rir, num primeiro momento, com a graça de duas pessoas que se aproximam, e na outra geram a tensão. Lucia em Comunhão é extremamente multifacetada, pois o texto revela diferentes tempos da personagem e com muita perspicácia ela dá as entonações necessárias para cada fase. Por sua vez, Luisa faz um papel fantasmagórico, é uma ouvinte que também vai sendo impelida a incerteza e quando se põe a falar também demonstra a dúvida, numa construção de personagem muito bem feita. 

Há uma terceira atriz, que integra somente a peça Comunhão, que é a Magali Biff, que põe toda a sua força, corpo, voz e entrega em cena, num vórtice do monólogo inicial que é impossível não ser engolido. Com uma atuação profundamente madura é uma personagem que mesmo parecendo fútil inicialmente, vai mostrando as nuances, os medos, o que ela esconde, sem nunca dar uma resposta definitiva, tudo concentrado numa atuação magnética e magnífica. 

Uma excelente oportunidade de ver o quanto o teatro é esse espaço versátil, e nem falamos do cenário, que se faz dois em um. Também nem mencionei da sonoplastia e também delas tocando e cantando em cena. E nem fiz alusão a iluminação que é muito interessante. Ou seja, há várias outras versatilidades em cena que valem a pena serem assistidas de perto.

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