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Crítica Teatral

Mamão Papai – Quando o silêncio sangra em cena

Em MAMÃO PAPAI, Pâmela Côto transforma trauma, memória e reconexão em um solo de autoficção que expõe, com rigor estético e brutal delicadeza, as camadas íntimas da violência afetiva e das estruturas opressivas que atravessam a experiência feminina

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em

Foto: Rafaela Guitel

Por Leonardo Talarico

Com criação, dramaturgia e atuação de Pâmela Côto, MAMÃO PAPAI é um solo informado como autoficção perpassando vínculos explícitos (eróticos) da afetividade traumática na sua concepção mais larga (afetividade não apenas como afeto, mas também como o significado de cada sentimento).

Guardadas as especificidades de cada obra, Mamão Papai aproxima-me da obra Anna Kariênina, de Leon Tolstoi. 

Inobstante estejam debruçadas em circunstâncias específicas, ambas interrogam outras formas de existência da mulher, além da imposta pelas opressoras sociedades vigentes. 

As dores comunicadas em diálogo direto com a plateiaencontram impulso no silêncio reflexivo descoberto pelas memórias de uma mulher em estado de compreensão e reconexão com o pai. 

Um reencontro tensionado, cuja violência cicatrizada parece ter as crostas arrancadas ao vivo em silêncio ensurdecedor. 

Estamos acostumados a reconhecer a dor imposta pela violência de forma épica (um grito para frente). Em MAMÃO PAPAI, a dor vem em camadas épicas e líricas por meio de explícitos desdobramentos nada óbvios. 

Excelente ponto para Pâmela Côto, Carla Zanini, Giuliana Maria e Felipe Rocha.

O ponto fulcral é o drama posto em um lugar nobre após anosde silêncio existencial. 

A peça atravessa matizes e aponta à plateia uma grave estrutura opressiva por meio de uma interpretação múltipla (total artes). 

E a despeito da atriz caminhar por diversos modais na construção e apresentação da personagem, todas as formas não aceitam facilidade. 

Era possível escapar para horizontes mais palatáveis ao público. Mas a beleza da contação da história está exatamente na administração do teto e percurso dramático.

E para isso ocorrer aparecem inúmeras técnicas verbais e antropológicas bem-sucedidas (dilatação, desequilíbrio, vetorização, equivalência, assimetria e oposição). 

No tocante ao texto dito, a escolha da modulação, os finais de frases cantadas oportunamente, o controle perfeito da volumetria, sussurros e pausas geram excelente esclarecimento. Ouvimos duas músicas: a história contada e as imagens simbólicas. 

A dramaturgia (Pâmela Côto, Maria Isabel Iorio, Amanda Lyra e Ivy Souza) é escorreita e conta com a inteligência da plateia nas associações necessárias. 

A direção de Carla Zanini escolhe realizar um teatro de atriz, minimalista, voltado à compreensão do texto e prima pela unidade dos demais saberes teatrais. Todos os operadores realizam o mesmo espetáculo. 

Interessante também observar que a direção de movimento faz a atriz caminhar para o seu destino. Não há movimentação ao acaso. A coreografia (Débora Veneziani – colaboração) se ajusta aos interesses da passagem cênica. 

O figurino (Andy Lopes) é utilitário. O cenário e a direção de arte (Celina Lira) são bem compostos, possuem o minimalismo exigido, produzem algumas imagens muito interessantes eauxiliam a dramaturgia (bíblia no pedestal, simbolismo). 

Confesso que a garrafa de café retira dos meus olhos a ambiência proporcionada pelos demais elementos cênicos, mas isso é um detalhe aqui posto apenas por honestidade intelectual com o leitor. Não interfere na qualidade do todo. 

A cena do funeral, à guisa de exemplo, é muito bonita. A trilha sonora (Mini Lamers) está muito bem elaborada e auxilia sobremaneira o envolvimento dramatúrgico. 

O desenho de luz é estético e condizente com o espetáculo. Tenho apenas duas singelas observações: 

1a. quando a luz sai dos lindos recortes da atriz (com profunda ambiência) e abre o salão (luz geral – intensidade) retira o clima intimista. Como ligar a luz do ventilador sem querer durante o ato sexual. Mas é apenas uma observação e questão de gosto, haja vista não termos como saber se a intenção era exatamente essa ruptura. Não compromete. 

2ª. É uma leveza. Nesse momento no qual todo grid teatraltem sido substituído por luz “led”, gratificante verificar vários focos analógicos” direcionados à protagonista. Até que surge a abertura das luzes azuis de LED laterais (“ribalta”). Mas, obviamente, isso não é um senão, pois é um privilégio assistir a uma luz montada com holofotes analógicos.

A videografia (Julia Ro) fica no limite de confrontar o teatro de atriz (obra onde tudo serve e nada se desvirtua da atriz), mas não chega a embolar a linguagem. As imagens são pertinentes e estéticas. 

Mamão Papai debate inúmeros assuntos relevantes à sociedade moderna (ausência paterna, masculinidades, quebra de tabus, não pertencimento, reconstrução, compreensão do estado de vítima, violência nos seus recantos, existência em plenitude, feminilidade etc.). 

Um espetáculo daqueles que se faz porque quem o fez não viveria em paz se não o fizesse.

Vida longa.

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