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Cinema

Rio de Sangue: cinema brasileiro que incomoda e atravessa

Rio de Sangue não é um filme confortável. E talvez seja justamente por isso que ele importe. Porque nos lembra que o cinema brasileiro, quando se permite tensionar suas próprias feridas, alcança um lugar raro: o de não apenas contar histórias, mas de nos convocar a senti-las.

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em

por Vanessa Ricardo

Sempre gosto de ir ao cinema assim: no escuro, sem saber muito, deixando que o filme me atravesse antes mesmo de eu tentar entendê-lo. Talvez seja esse o meu jeito de ainda acreditar na experiência coletiva da sala, nesse ritual quase íntimo que é sentar diante da tela. E quando se trata de cinema brasileiro, existe também um compromisso afetivo como jornalista cultural, mas, antes disso, como alguém que acredita profundamente na potência das narrativas que nascem daqui.

Foi assim que cheguei a Rio de Sangue, dirigido por Gustavo Bonafé e estrelado por Giovanna Antonelli. E saí atravessada.

O filme nos apresenta Patrícia Trindade, uma policial civil afastada após uma operação fracassada, mas reduzir essa personagem ao uniforme seria injusto. Há uma densidade ali que escapa dos arquétipos televisivos. Antonelli, que já vestiu a farda em outras ocasiões, aqui constrói uma mulher em ruínas, tensionada entre o dever e o afeto, entre a sobrevivência e a culpa. Patrícia não é heroína, tampouco mártir. É carne exposta.

A narrativa se desloca de São Paulo para o Pará, e essa travessia geográfica também é simbólica. Ao fugir de uma sentença de morte imposta pelo narcotráfico, Patrícia tenta, na verdade, se reconciliar com aquilo que deixou para trás: sua filha, Luiza, vivida por Alice Wegmann. Médica, engajada em ações humanitárias com comunidades indígenas no Alto Tapajós, Luiza encarna um Brasil que resiste e que também está sob ameaça.

Quando ela é sequestrada por garimpeiros, o filme muda de pulsação. O que antes era drama se transforma em urgência. E é nesse ponto que Rio de Sangue encontra sua força: não apenas no thriller policial que se desenha, mas na dimensão humana que sustenta cada decisão. A jornada de resgate é, sobretudo, um mergulho nas contradições de uma mãe que precisa voltar a ser aquilo que tentou abandonar.

Há também um cuidado estético que salta aos olhos. A fotografia que acompanha a vastidão e a dureza da paisagem amazônica não romantiza, mas também não afasta. Existe beleza, sim, mas uma beleza que incomoda, que denuncia, que coloca o espectador diante de um Brasil profundo e, muitas vezes, negligenciado.

Outro elemento que atravessa Rio de Sangue com força é a narração de Fidelis Baniwa, que não apenas conduz, mas aprofunda a experiência do filme. Sua voz carrega uma dimensão quase ancestral, como se o território também falasse e isso desloca a narrativa para um lugar menos óbvio, mais sensorial e político. Há ainda uma escolha estética que, em muitos momentos, evoca o imaginário de Mad Max: Fury Road: paisagens áridas, tensão constante, corpos em estado limite. Mas aqui, essa referência não soa como imitação, ela se tropicaliza, se enraíza, ganhando contornos próprios dentro de um Brasil brutal e pulsante.

E é impossível não destacar a atuação de Felipe Simas, que surge como uma presença inquietante em cena. Há algo de profundamente perturbador na forma como constrói seu personagem, com uma frieza que beira a psicopatia, mas nunca escorrega para o exagero fácil. Pelo contrário: Simas sustenta uma tensão silenciosa, quase imprevisível, que mantém o espectador em alerta. É um trabalho que surpreende justamente por romper expectativas, revelando camadas mais sombrias e complexas de um ator que aqui se arrisca e acerta.

Rio de Sangue não é um filme confortável. E talvez seja justamente por isso que ele importe. Porque nos lembra que o cinema brasileiro, quando se permite tensionar suas próprias feridas, alcança um lugar raro: o de não apenas contar histórias, mas de nos convocar a senti-las.

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