Festival de Curitiba
“No fim do Beco” ou o que acontece quando um clássico trava
É um dos melhores trabalhos que vi dentro da programação do Festival; certamente um dos maiores acertos do ano passado. A dramaturgia, assinada por Trava, disseca a matriz cênica original para, ao final, reformá-la
Foto: Divulgação
por Carlos Canarin ) (@ocanariocritico)
É muito corriqueiro e clichê dizer que um clássico (em qualquer área) o é por sua habilidade de dialogar com vários tempos, vazando além do seu próprio. Muitas vezes, quando uma dramaturgia dita clássica do teatro ocidental é montada, sua estrutura e linguagem são postos à risca; as reinvenções e propostas inovadoras no sentido de outras perspectivas são alternativas sagazes que corrompem um certo purismo do clássico – e para mim é mais interessante quando isso acontece. Não que eu seja contra a montagem stricto sensu de uma obra já conhecida, mas a morte ao gênio e a uma estagnação do tempo são transições interessantes para refletir como o hoje transforma o passado, e não o recria enquanto paralisia.
Um exemplo mais recente é o trabalho feito por Renata Carvalho, artista travesti, quando ela toma para si a história de Jesus e corporifica a partir de sua própria existência, deslocando o olhar, reinventando os sentidos e, é claro, incomodando a paralisia normativa – e isso se adensou se pensamos no aspecto religioso e moral.
Trago o trabalho de Renata como referência pois ele dialoga diretamente com “No fim do beco”, trabalho que estreou ano passado em Curitiba e voltou para compor a Mostra Petrobrás de Novos Bifes. Protagonizado por Trava da Fronteira, Major Farias e Colombina Gasparello, o trabalho busca revisitar Antígona a partir da vivência travesti, atualizando-o por esse movimento do protagonismo trans. É uma proposta que não nega o passado: ao invés disso, joga com ele, reelaborando sua linguagem e aproximando-a de uma oralidade mais brasileira, informal, corriqueira, misturando ainda slam e pajubá.
É necessário lembrar que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans. Em “Antígona”, o mote se dá pelo impedimento relacionado ao enterro de um dos irmãos da protagonista, pela mão da lei dos homens em vez da divina; na realidade brasileira, o futuro é roubado da existência de pessoas trans. A luta pelo nome social, por exemplo, é um dos pontos dramatúrgicos atualizados na peça, se pensamos na transfobia enraizada na sociedade que produz desrespeitos e invasões de subjetividade que negam a pessoa o nome, o pronome, o corpo e a vida como um todo. A existência é paralisada muitas vezes por essa sociedade. Mas a resistência, assim como Antígona, é inata e inevitável.
É um dos melhores trabalhos que vi dentro da programação do Festival; certamente um dos maiores acertos do ano passado. A dramaturgia, assinada por Trava, disseca a matriz cênica original para, ao final, reformá-la. A morte não vai existir, não mais. Vamos pensar em futuros possíveis. Em imagens positivas. Em outras histórias para contar que, mesmo em meio a um mundo que te nega em vida, reverte tudo aquilo que a sociedade espera, pensa, quer. Antígona travesti vai viver, e não sozinha.
A direção é refinada sem precisar de muitos truques e elementos mirabolantes, colocando a iluminação como fator fundamental dentro da encenação. A luz, assinada por Juliane Rosa, cria em muitos momentos uma dimensão onírica, poetizando a penumbra e ao mesmo tempo epicizando as atrizes em cena. O elenco possui um jogo e entrosamento invejáveis, trabalhando super bem momentos tensos com a dosagem pelo deboche, por exemplo.
O único excesso que encontrei está no meio para o final, onde a referência de Antígona e seu sofrimento/impostação de fala ficam exacerbados. A síntese poderia ser uma opção. Mas logo o jogo vira e nos deparamos com as atrizes cortando ao meio o texto de Sófocles. Para mim, a melhor solução da peça, maravilhoso ato de subversão.
Torço pela volta do espetáculo aos palcos da cidade e para que circulem o Brasil. É uma perspectiva nova que une tanto o discurso como a composição estética em cena, abrindo caminho para que narrativas únicas sejam travadas e voltem ao começo com outro olhar – menos normativo, mais explosivo.

