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O cênico como subversivo

A cena final, um monólogo da personagem interpretada por Ricardo Blat, sentada na beira do palco, é duma beleza que me parece que carrega consigo toda a ambiguidade do título e de que não estão subvertendo Kafka, mas é o próprio autor que carrega consigo a subversão.

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Foto: Carlos Costa

Por gabriel m barros

​Desde quando soube que o escritor Franz Kafka (1883-1924) entregou seus manuscritos ao melhor amigo e solicitou que ele os queimasse, me questiono do que seria do mundo sem suas obras. A mim seus escritos foram uma verdadeira revolução, sobretudo por todo o estranhamento que ele desdobrou em mim e pela inquietação que ainda me leva.  

Porém, ao mesmo tempo me recordo de uma professora de teoria literária que me questionou, em uma conversa informal quando estava planejando ingressar no mestrado e discutir sobre leitura literária, sobre o que a literatura muda na vida das pessoas, uma vez que há um grupo imenso que existe sem o mínimo contato com isso. Então, tecnicamente um mundo sem os textos de Kafka seria o mesmo mundo que existe com os escritos dele.

Penso que tal inquietação, da pertinência do literário para o mundo, pode ser levada ao teatro. De que serve o teatro, uma vez que várias pessoas vivem sem o contato com isso. E aí, me parece que a pergunta inverte: as pessoas vivem sem? Eu, por exemplo, sei pouquíssimo de química, mas tenho total certeza que ela permeia absolutamente tudo que faço e que ótimo. Sigo sem ela, embora ela esteja em tudo e marcando minha vida. 

E quando o teatro se apropria do texto literário kafkiano? Já tratei em outra crítica do encontro do literário com o cênico, contudo aqui trato da peça Subversão Kafka, em cartaz no Sesc Bom Retiro, que reúne três contos desse autor, num texto inteligentíssimo tecido e amarrado pela dramaturgia de Ricardo Blat e dirigido por Caio Blat, contando com as atuações dos dois e com música feita ao vivo, e também participação cênica, de Fernando Moura. 

A peça pega textos que tratam do circo e assim o cenário, apesar de ser bem singelo, carrega tudo isso. Destaque para a iluminação de Sarah Salgado, que dá o tom festivo que o circo carrega e anima os expectadores. 

As atuações são um deslumbre a parte. Caio e Ricardo demonstram o quanto o texto kafkiano é dum divertimento apesar de sua própria esquisitice, ou principalmente por conta disso. Vozes e caretas são acionados para gerar o humor (Ricardo Blat está soberbo nos vários papéis que faz), mas também o corpo (Caio Blat faz Um artista da fome e faz uma cena em que contraí o abdômen e segura por um bom tempo). 

A cena final, um monólogo da personagem interpretada por Ricardo Blat, sentada na beira do palco, é duma beleza que me parece que carrega consigo toda a ambiguidade do título e de que não estão subvertendo Kafka, mas é o próprio autor que carrega consigo a subversão. 

Lembro do Ítalo Calvino, quando trata do por que ler os clássicos e menciona, num português mais simplificado, algo como “é melhor que não ler”. Me parece que é a mesma coisa com o teatro: pouco importa se o teatro e a literatura muda ou não o mundo, mas ele desloca algo, e isso, me parece forte o suficiente para subverter tudo. Nesse sentido, o teatro ainda é o lugar por excelência de subversão, pois é um corpo na corda bamba, envolvendo outros vários tantos corpos que também estão na corda bamba. E como equilibristas, nesse circo imenso que é o viver, o teatro é a espécie de guarda-chuva que facilita no equilíbrio.

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