Cultura
Lampejos 3: Quem matou meu pai?
Entre memória pessoal e história política, Édouard Louis revisita a relação com o pai em um relato duro sobre violência, classe e afeto, em cena dirigida por Thomas Ostermeier.
Foto: Jean Louis Fernandez
Por gabriel m. barros
Dos textos de Louis, esse foi um dos que li e registro a fidelidade com a obra literária. É uma produção que ao refletir sobre a morte anunciada de seu pai, leva o autor, que aqui também é o ator, a revisitar sua história com esse membro familiar, mesclando história pessoal com história política.
O texto é duro, permeado das várias violências: dos pais contra os filhos, desses contra seus progenitores, do estado para com os mais pobres. Ainda assim, também há seus momentos de doçura, de afeição, de cuidado. A reflexão mais contundente apresentada é a de que a violência, enquanto fenômeno histórico-social, gera reações muito diversas e não só mais violência. O pai de Louis optou em não reproduzir a violência, o que não o impediu de em alguns momentos gera-la, só que de outra natureza. Contudo, passou uma vida revisitando essas dores e lutando para não refletir mas suas ações tudo isso.
Nesse aspecto a peça caminha para essa espécie de remissão do pai, que chega mas de forma muito tímida. O espaço deixado para refletir sobre isso é mínimo. É uma história de e da dor. Aos que esperam encontrar algo nesse aspecto da remissão, não encontrarão aqui.
Agora propriamente sobre a construção cênica, o diretor é o mesmo da peça História da violência, que assisti domingo. Os recursos cênicos são muito similares. Por exemplo: Édouard Louis usa microfones em quase toda a peça, as transições são marcadas por danças. Enfim, a novidade de um espetáculo para outro é muito pequena.
Ainda assim, é apenas o autor-ator no palco. Encenando seu próprio texto, Louis vai construindo um papel crescente. A cena da sua vingança e a que assinala o adoecimento do seu pai com medidas governamentais são o ponto alto da peça. Contudo, entendendo que Louis não é propriamente um ator, senti falta de elaborar melhor e dar forma para as vozes das outras personagens que aparecem ao longo da história. Nessas cenas citadas ele chega a se metamorfosear em outros, mostrando que conseguiria.
Ver as duas peças dirigidas por Thomas pode, assim, perder um pouco do seu encanto. Creio que uma escolha mais interessante seria inverter a ordem, já que estamos escrevendo sobre uma mostra de teatro, trazer o autor-ator primeiro e depois a outra, feita com mais atores e maiores recursos cenográficos.
Entendo que Louis é um fenômeno, inclusive a ponto de levar pessoas que costumeiramente não vão ao teatro até esse espaço (o rapaz que estava ao meu lado, por exemplo), porém me pareceria mais interessante utilizar essa força catalisadora do autor para uma incursão ainda maior no fazer teatral, no corpo que se desdobra e vira vários. Minha expectativa é que isso tenha acontecido e não parado apenas no próprio fenômeno.
No mais, a MITsp que já investiu em várias experimentações cênicas em outras edições, me parece que agora voltaram um passo como se tentassem trazer o público ao teatro. Eu, que só ocupo o espaço de quem dá meia dúzia de pitacos disparatados, recomendaria trazer nossos arautos do teatro, que sentados, ala Fernanda Montenegro ou Walderez de Barros agora com Medea, com uma folha diante deles, criam um universo somente lendo um texto.

