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Opinião

Vermelho acalanto

​O espetáculo é um convite para a beleza que há no tentar. Afinal viver pode ser descrito como só isso: tentar. Sem saber se haverá sucesso ou não e, às vezes, muito menos preocupado com isso. Só fazer. E o fazer em cena, com entrega como é feito nessa peça, é comovente e encantador.

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Foto: João Kopv

Por gabriel m. barros

​Que o teatro brasileiro, apesar de vários pesares, de falta de investimento, de projeção, de políticas de continuidade, etc. etc. etc., que ainda assim é um teatro que faz muito, mesmo diante da própria precariedade, isso é um fato que dificilmente será contestado. 

​É nesse cenário que o Sesc, pelo menos em São Paulo, se faz uma espécie de oásis e acolhe obras das mais distintas. De fato, é um espaço de formação cultural de muitas pessoas, a minha principalmente. 

​Esse preâmbulo é para assinalar que mais uma peça foi estreada na instituição, em específico no Sesc Avenida Paulista, no coração agitado de São Paulo. Os ingressos já estão esgotados e ainda assim, vale a ressalva de que vale correr pra tentar ver. A peça é Autobiografia do vermelho, romance-poema de Anne Carson, dirigido por Daniela Thomas e com a atuação de Bianca Comparato.

​É o encontro de três elementos grandiosos: um grande texto (posso dizer que uma imensa autora), com uma atriz espetacular e uma diretora que tem um histórico de enormes acertos. Esse encontro de três mulheres gigantes já é capaz de fazer uma vermelhidão eclodir, entretanto uma peça, mesmo que um monólogo, ainda tem um grupo enorme envolvido. As demais pessoas chamadas para manter esse tripé em pé acertam, seja Lello Bezerra no som, Gabi Costa junto assinando a dramaturgia, ou Felipe Tassara com o figurino. Enfim, é toda uma constelação que é acionada pra realçar a grandeza do trabalho de mulheres incríveis. 

​Porém o que chama mais a atenção é que a história que se conta é de um monstro: Gerião. Num texto que não se preocupa em atualizar mitos, o monstro que é assassinado por Hércules sai da lógica grega e ganha novos ares, mais americanizado, mais inserido no século XX. E nessa espécie de não apego com o real, que os próprios mitos pedem pra si, vamos encontrando um ser vermelho que a sua monstruosidade não é o problema, mas o lidar com a vida. Em alguma medida, o ser monstro não ser uma questão vai colocando que nós também somos o monstro e que lidamos com nossa monstruosidade que é o viver, o encaixar, o amar e o lidar com o que se sente. 

​Para dar forma a isso, num romance que há tantas vozes, Bianca Comparato põe em cena corpo e voz e se faz várias personagens, faz a si própria também nesse processo. É uma multidão em cena, com seus silêncios, com seus vazios e com suas procuras que nem sempre se respondem. 

O espetáculo é um convite para a beleza que há no tentar. Afinal viver pode ser descrito como só isso: tentar. Sem saber se haverá sucesso ou não e, às vezes, muito menos preocupado com isso. Só fazer. E o fazer em cena, com entrega como é feito nessa peça, é comovente e encantador.

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