Festival de Curitiba
Uma dramaturgia inundada pelo desejo de fazer tudo acontecer
O erro do espetáculo Atrás das Paredes está na dramaturgia e na direção, mas tudo isso se corrige quando na base da companhia está a presença de uma forte postura cênica.
Foto: Divulgação
Por Leonardo Talarico
Assisti ao espetáculo “Atrás das Paredes”, no dia 07 de abril, na Caixa Cultural Curitiba, na mostra Lúcia Camargo, Festival de Curitiba. O espetáculo é realizado pela Companhia Plágio de Teatro.
A trama gira em torno de um almoço entre famílias com alguns indivíduos criminosos. Flora decide convidar vizinhos específicos para celebrar o suposto aniversário do seu marido.
Na sinopse do espetáculo leio: “o que estava submerso pelas aparências vai sendo revelado”.
Nessa observação citada está o epicentro problemático da encenação. Submersão pressupõe profundidade e a dramaturgia da peça impossibilita esse mergulho por diversas circunstâncias.
A uma, porque o espetáculo apresenta diretamente tudo para o público muito cedo. Não constrói por diálogos, solilóquios e expressões, estradas condutoras aos problemas e profundidades. Tudo é posto às pressas do esgotamento. Abordar temas complexos de forma apressada mitiga sua importância.
A duas, são lançados para dentro do texto muitas questões para serem desenvolvidas em 60 minutos. Portanto, tudo passa simples tantas são as questões. Pouco é o tempo. Muitas são as histórias.
A três, o texto não aborda os temas por meio de uma dramaturgia bem estruturada. Acaba por se aproximar da teledramaturgia tamanho os vícios de “ligames” presentes. Destaco, por oportuno, a previsibilidade (todos sabem tudo que acontecerá); inexistência de diálogos com mais fôlego sobre as tantas ocorrências; elementos importantes com resoluções não explicadas a contento, apenas descritos sob à pressa do esgotamento.
Em termos de encenação, inobstante estarmos diante de bons atores, a escrita arrasta toda a companhia de teatro para uma interpretação “acelerada” e personagens reveladas com poucas camadas.
Nessa linha de raciocínio, as personagens deixam à mostra — imediatamente — tudo que são. Não há oposição da antropologia teatral e mais intensidade nas questões físicas e estruturais apontadas.
Logo, os matizes construtivos foram substituídos por um esclarecimento imediato. E a escassez de tempo é tamanha que as personagens dialogam com aplicações narrativas para tudo caber.
Pelo fato de ser uma companhia de teatro, fica visível a intimidade. Os atores e atrizes acertadamente não possuem destaques pessoais. Todos estão em boa categoria e uníssonos. São bons atores. Atores de companhia séria. E falam a mesma língua e realizam o mesmo espetáculo.
A direção do espetáculo também se prejudica nos excessos. Se tivesse escolhido recortes mais concisos, poderíamos assistir mais cenas bem construídas como a do abuso duplo debaixo da mesa. A escolha é muito inteligente e a execução é valorosa.
Surgiram críticas pelo fato da cena provocar gatilhos em algumas mulheres. Mas nesse aspecto preciso defender a companhia Plágio. O Teatro também possui na sua estrutura biológica o espanto por mostrar a realidade. E entendo corajosa a postura da Companhia Plágio de enfrentar determinados temas e os expor com a “crueldade” que merece para ganhar exposição e solução. Muitas companhias famosas, ao longo do tempo, perdem esse ímpeto e começam a fazer concessões.
O erro do espetáculo Atrás das Paredes está na dramaturgia e na direção, mas tudo isso se corrige quando na base da companhia está a presença de uma forte postura cênica.
Uma cena ou espetáculo que todos saem ou passam mal (isso não ocorreu no espetáculo em tela – foi pontual) cumpriu um dos objetivos históricos das artes cênicas.
E digo isso porque a potência da cena está na articulação do real com o simbólico, pois não há mínima apelação cênica. A cena não foi apelativa.
A luz cênica é de serviço, sem recortes e valores dramáticos. O cenário e o figurino são meramente utilitários. A direção de movimento corre atrás da dramaturgia.
Por fim, fica claro que é uma companhia séria, com bons profissionais, mas tropeçaram (algo absolutamente normal) na ânsia de levar para o palco muitas questões fáticas importantes que demandam tempo cênico à resolução.

