Festival de Curitiba
Sidarta – Travessia interior em estado de presença
Tudo está vivo o tempo inteiro na sua fala à plateia. Trata-se de uma obra com força residente na experiência interior. Um instante de travessia do ator e do público em tempo dilatado. É um Teatro de Ator e de fôlego.
Foto: Cláudio Pitanga
Por Leonardo Talarico
Assisti ao espetáculo “SIDARTA”, no Teatro José Maria Santos, no dia 10 de abril (mostra Lucia Camargo -Festival de Curitiba).
Sidarta, filho de Brâmane, decide deixar a casa dos pais e realiza uma viagem extraordinária. A história de Hermann Hesse é por demais conhecida e o ator resolveu a narrar com alguma liberdade. Não se impôsuma obrigação textual. O rigor é com a lembrança.
A contação da história está muito bem-posta. O ator realiza uma interpretação horizontal com a plateia. Assenta verbos, finais de frase, volumetria, nuances, dinâmicas frasais e tudo o mais necessário para substituir a interpretação por apresentação, na melhor lição do meu querido Amir Haddad.
O mais interessante da montagem é que as palavras estão esculpidas também na coreografia e na direção de movimento. O espaço cênico possui pontos geográficos e o corpo possui esculturas para que o ator diga ao público tudo preciso. Uma história contada ao sabor das lembranças. E o ator o faz sem a “memória do futuro”.
Tudo está vivo o tempo inteiro na sua fala à plateia. Trata-se de uma obra com força residente na experiência interior. Um instante de travessia do ator e do público em tempo dilatado. É um Teatro de Ator e de fôlego.
Obras como essa correm um grande risco de perder a plateia, sobretudo nos tempos hodiernos de ansiedade provocada por telas e músicas cada vez com batidas mais intensas. Mas, corajosamente, toda equipe confia em si e no público.
O trabalho provoca rigor de escuta e imaginação, elementos centrais do Teatro. Entre o sagrado e o profano, nada (nem a solidão) se resolve fácil. É tudo muito complexo com as tensões mantidas em suspensão.
Como se perguntássemos: qual o sentido da vida? E respondêssemos: não sabemos, mas estaremos sozinhos noencontro.
Tudo apresentado por meio de elementos circenses, dança contemporânea, dilatação, equivalência, vetorização, teatro de rua, dentre tantos recursos complexos na construção das personagens e passagem cênica. Os demais saberes teatrais são fundamentais no transcurso da peça.
O desenho de luz (desenvolvido em tempo recorde) é linda e muito bem recortada. Pontua a dramaturgia e estabelece o cenário. Angel Ferreira caminha em direção da luz e dos sons que geram também ambiência.
O figurino conta história e a sua ausênciatambém informa. O cenário é um tapete cercado por todos os demais saberes teatrais.
SIDARTA é um espetáculo de vida. “O que é feito dos poemas não escritos por razão da morte do poeta?” Esse espetáculo só existe porque Angel Ferreira precisava falar tudo isso em primeira pessoa, e o faz brilhantemente.

