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Festival de Curitiba

Sidarta: A força da palavra, a entrega do corpo

Sidarta é um espetáculo de muitas camadas. Daqueles que não se esgotam em uma única experiência. É para ver e rever.

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Foto: Cláudio Pitanga

Por Vanessa Ricardo

Sidarta foi um dos espetáculos que mais despertaram minha curiosidade nesta edição, talvez porque eu tenha uma queda declarada por monólogos. Existe algo de profundamente desafiador em sustentar uma plateia sozinho em cena, e quando isso funciona, é quase um estado de hipnose coletiva.

Aqui, o minimalismo joga a favor. Um tapete persa, que se transforma em múltiplos espaços, e uma luz absolutamente arrebatadora, assinada por João Gioia e Renato Livera, constroem um ambiente que respira junto com o ator.

Acompanhamos a jornada de Sidarta, a partir do clássico de Hermann Hesse, em uma adaptação livre, bem-humorada e, por vezes, surpreendentemente leve. Angel Ferreira não apenas interpreta ele atravessa o personagem. Há uma entrega física e emocional que não tenta esconder suas próprias fissuras.

E talvez seja justamente aí que o espetáculo ganha outra camada: a ficção se contamina pela vida. Angel também percorreu sua própria travessia, se isolando na Chapada dos Veadeiros em uma espécie de retiro de busca interior. Isso reverbera em cena. Não como um recurso, mas como presença.

O que vemos é um ator que se lança inteiro, corpo, voz, silêncio. E isso é raro.

A dramaturgia convida o público a criar imagens a partir da própria imaginação, evidenciando a potência da palavra e isso torna o espetáculo ainda mais pulsante. Há uma confiança no vazio, no que não está dado, que exige presença de quem assiste.

Angel dá voz e corpo a múltiplos personagens, transitando entre eles com precisão e organicidade. Seu trabalho corporal é fenomenal: cada gesto, cada mudança de eixo, constrói novas camadas de sentido. Não há excesso há rigor, entrega e um domínio de cena que sustenta o espetáculo do início ao fim.

Sidarta é um espetáculo de muitas camadas. Daqueles que não se esgotam em uma única experiência. É para ver e rever.

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