Música
Ravi Brasileiro e Carlos Careqa lançam “61 91”, single que atravessa gerações e tensiona a noção de tempo
Com produção musical de Victória Ruiz e direção de clipe assinada por Oruê Brasileiro, faixa reflete sobre criação, existência e transição geracional
Foto: Amanda Sartor
A diferença de três décadas entre o cantor e compositor Carlos Careqa, nascido em 1961, e o músico Ravi Brasileiro, de 1991, tornou-se o ponto de partida de “61 91”, novo single e clipe que une dois artistas de gerações distintas em um mesmo território criativo. A parceria transforma a distância temporal em matéria poética, conectando inquietações artísticas que atravessam passado, presente e futuro.
O primeiro encontro entre os músicos aconteceu há quatro anos, no Teatro do Paiol, espaço emblemático inaugurado em 1971 com show de Vinícius de Moraes, Toquinho, Marília Medalha e o Trio Mocotó. A conversa inicial, marcada pela curiosidade mútua, revelou a coincidência: três décadas separavam suas datas de nascimento. Dessa constatação nasceu a ideia de transformar o intervalo entre 1961 e 1991 em narrativa musical.
Segundo Careqa, a canção surgiu a partir dessa provocação geracional. Já Ravi relembra que enviou composições próprias para que o parceiro conhecesse sua trajetória artística, processo que motivou a escrita da letra e consolidou o diálogo entre as duas experiências.
A primeira versão de “61 91” apostava em um compasso sete por quatro, estrutura rítmica complexa que chegou a desafiar a interpretação vocal. Ao longo do processo, a faixa passou por diferentes abordagens até chegar à versão final, com produção de Victória Ruiz, que combinou elementos orgânicos e eletrônicos e incorporou experimentações sonoras como parte da estética da obra.
Uma curiosidade do processo envolve a gravação inicial com o equipamento Quad Cortex, recém-adquirido por Ravi. Uma falha de áudio durante a configuração acabou sendo mantida na produção final, transformada em textura sonora que contribui para o caráter experimental da faixa.
Mais do que um diálogo entre datas, a música se debruça sobre a permanência humana no tempo. Para Careqa, a letra evoca tanto figuras que parecem “fazer hora extra” no mundo quanto artistas cuja trajetória se torna símbolo de múltiplas histórias, como o músico Hermeto Pascoal.
Equilibrando humor sutil e reflexão densa, “61 91” convida o público a habitar esse encontro geracional, onde passado, presente e futuro deixam de ser fronteiras e passam a coexistir como matéria viva de uma mesma narrativa. Para os artistas, o processo também gerou aprendizados: a canção, segundo Careqa, revela que o tempo pode ser simultaneamente severo e generoso.
Estética do clipe: entre luz, simbolismo e experimentação
A linguagem visual do clipe acompanha o atravessamento temporal proposto pela música. Com direção de Oruê Brasileiro e fotografia de Fernanda Simões, o filme aposta em minimalismo, simbolismo e texturas de luz para construir uma estética “fora do tempo”.
O projeto explora gestualidade, contrastes e expressividade corporal para sugerir a coexistência entre passado e futuro, vida e morte, teatro e música. A experiência cênica de Careqa se encontra com a pesquisa corporal de Ravi, que dialoga com seu trabalho no projeto Dança Livre à Dois.
Além das gravações em estúdio, o clipe incorpora inteligência artificial como ferramenta criativa, ampliando a discussão sobre linguagem e temporalidade. A IA surge como recurso estético que tensiona o real e reforça a ideia de uma obra situada entre gerações.
Ao final, “61 91” se apresenta como uma reflexão aberta sobre criação e existência. A obra evita respostas definitivas e aposta nos paradoxos: mistura referências do passado com linguagens contemporâneas, enquanto questiona qual seria a estética do futuro — um território ainda desconhecido.
O projeto foi aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura, com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio do Ministério da Cultura.

