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Festival de Curitiba

O último plié da “Bailarina” antes do hack a si mesma

A busca pela “perfeição” branca a levou até ali, e a mensagem do abandono a tudo isso é o que fica. É o último movimento que faltava.

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Foto: Noelia Najera

Por Carlos Canarin (@ocanariocritico) 

Meus pais não me matricularam no ballet quando eu era pequeno. Eu era um menino e a coisa mais masculina a se fazer no colégio era tudo menos o ballet. Lembro das meninas super arrumadas, com suas touquinhas, suas sapatilhas. Eram meninas brancas, como a maioria das crianças do meu colégio. Nada contra as bailarinas, mas se fecho os olhos e penso nessa dança é inevitável a associação com tons pastéis, dor extrema, uma limpeza absoluta, mini soldadas vestindo tule e que sabem falar algumas palavras em francês. Essa negação infantil pode ter sido o motivo pelo qual eu nunca gostei de assistir.

“Bailarina Fantasma”, solo de Verônica Santos, parte também de memórias da artista para sua feitura. É uma memória que mesmo singular também é coletiva da mesma maneira. Junto com ela, podemos associar rapidamente figuras como Mercedes Baptista (1921-2014) e Ingrid Silva, bailarinas negras que fizeram seu nome dentro da área e que são referências positivas para gerações seguintes, pois enfrentaram dificuldades que explicitam como a arte também é sequência de domínio. 

O texto assinado por Dione Carlos é de suma importância para a construção da base conceitual da peça; é por ele que o território é demarcado, talvez mais do que a composição imagética que acontece durante toda o passeio da performer pelo o que chamarei de “instalação da dor”. Dione, entre alusões, referências, devaneios e críticas, esmiuça as permanências das violências quanto ao corpo de uma mulher negra, que teve sua vida e seu corpo moldados por um não-pertencimento numa prática de subjetivação branca. A “peça sonora” da dramaturga finca no terreno, se assenta enquanto discurso, num lugar não somente militante, mas principalmente poético. Dá a base para que outras relações possam ser experimentadas no espetáculo.

Após essa “introdução” que lapida a coluna vertebral do espetáculo ~ imaginar uma coluna não engessada, mas propensa aos movimentos circulares, às dobras e malemolências da experiência ~ a relação que se estabelece é, principalmente, visual. Ao mapear seu corpo e constatar como foi este foi normatizado para caber no ballet, para que fosse um simulacro do corpo branco, mesmo essa casa nunca sendo verdadeiramente sua, Verônica aponta para um possível hackeamento desse sistema, que também faz parte dela em alguma medida. 

A repetição de movimentos do ballet produz outras Verônicas naquele tempo-espaço, outras possibilidades de doppelgangers que existem e são anti tudo aquilo que a imobiliza. Dançar como quem se vinga. A constatação da liberdade é tanta que ultrapassa as barreiras físicas de seu próprio corpo, espelhando sua imagem em tantas outros reflexos. É uma concepção visual metafórica e bem construída, “legitimada” pela construção dramatúrgica feita anteriormente. 

É teatro ou é dança? Os dois puramente misturados? E qual o motivo da urgência de uma definição, da busca incessante por uma definição? Sempre queremos dar nome as coisas, classificar, normatizar, para que um entendimento linear e cartesiano possa ser feito. E talvez more aí um dos pontos mais certeiros de “A Bailarina Fantasma”: não ser o que se espera. Vazar para outro lugar, sem corresponder às pré-definições do imaginário comum. E quando Verônica parte em meio à noite, após “abandonar” a instalação da dor, ela também rejeita uma tradição artística de receber os aplausos, de ser adorada como uma bailarina perfeita. A busca pela “perfeição” branca a levou até ali, e a mensagem do abandono a tudo isso é o que fica. É o último movimento que faltava.

 

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