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Festival de Curitiba

O não-espetáculo e a presença: Casagrande respeita a coxia

competentes. Mas o espetáculo “Na Marca do Pênalti”, por motivos desconhecidos por mim, não aconteceu no dia três de abril.

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Foto: Ronaldo Gutierrez

Por Leonardo Talarico

Assisti ao espetáculo “Na Marca do Pênalti”, com Walter Casagrande, no dia 03 de abril (estreia nacional), no Teatro Guaíra, classificado na revista oficial do Festival de Curitiba como um “monólogo de autoficção”. 

A direção e idealização são de Fernando Philbert, e a dramaturgia é de André Acioli, Fernando Philbert e Walter Casagrande. 

Ser diretor de teatro possibilita-me desfrutar do conhecimento prático da coxia. Todos os críticos possuem suas especificidades e cumprem uma função social. 

Como entendo que a medida do artista é a medida do  humano, a formação pessoal do crítico (e todos os demais profissionais) proporciona uma percepção e ponderação particulares. Ao informar meu conhecimento prático de coxia, não opero agir em superioridade; apenas estabeleço um fato relevante para que todos os leitores saibam perfeitamente de onde parto na análise cênica.

Partir da coxia significa analisar inicialmente uma obra sob a perspectiva prática do posto em cena, com as dificuldades e pretensões inerentes à realização teatral. 

Para efeito didático, trago exemplo: há equívocos cometidos por atores que denotam problema de formação artística, outros de formatação da personagem e, por fim, ressalto os famigerados deslizes de ocasião. 

Obviamente, existe uma hierarquia que deve ser levada em consideração na exposição crítica, sob pena de o rigor sem ponderação hierárquica resultar em crueldade, assim como a compreensão excessiva resultar em desonestidade. 

Toda crítica teatral deve, sob minha ótica, “virar e desvirar a coxia”. E por que digo isso? Para explicar a minha escolha de análise do monólogo de autoficção de Walter Casagrande.

Havia dentro do meu dever duas escolhas: escrever impiedosamente sobre o espetáculo anunciado ou analisar o feito de Casagrande. Peço licença para mais duas observações: primeira, não tenho mínima relação ou afetividade com Casagrande. Por mais que entenda desnecessário discorrer sobre a desconexão óbvia existente entre conhecidos e críticas, sob pena de maledicência e desonestidade intelectual, no caso em tela o ser humano Walter Casagrande não ocupa mínima conexão na minha história; segunda: no Direito Penal existe determinação legal para classificar determinadas condutas como um crime impossível (ex.: não se mata um cadáver). Portanto, não me deixa confortável criticar uma “realização não ocorrida”.

Os profissionais envolvidos no presente projeto são muito competentes. Mas o espetáculo “Na Marca do Pênalti”, por motivos desconhecidos por mim, não aconteceu no dia três de abril. 

Entretanto, acredito não devamos abandonar a análise do fato ocorrido no palco por razão dos demais fatos não ocorridos. E para poder seguir em análise nesse inédito caso na minha vida, realizo uma simples pergunta: Casagrande respeitou o espaço cênico? 

Para mim, a resposta é sim. E assim sendo, deixemos — por impossibilidade — a análise dos labores teatrais e nos debrucemos sobre a fala de Walter Casagrande.

Casagrande sobe no palco diante da presença de plateia e torcedores uniformizados com o objetivo de revisitar sua vida e carreira. E o faz com mérito. 

De forma esclarecedora e a serviço do público, perpassa sua história para servir de exemplo e afastar outras pessoas das mazelas atravessadas por ele por razão dos vícios e comportamentos. 

Histórias contundentes são apresentadas sem desculpa pessoal. As imagens das suas jogadas exibidas no telão não têm por objetivo homenagem, egocentrismo ou exibicionismo. Servem para dosimetrar o tamanho da queda e reforçar a ideia de que todas as pessoas estão sujeitas a viver as mesmas circunstâncias, assim como também estão aptas, a sua maneira, de redirecionar suas vidas.

A fala de Casagrande é um ato de coragem porque não é do comportamento tradicional humano encenar suas derrotas. 

Casagrande escolheu mitigar seus feitos profissionais para servir de exemplo nos mais diversos assuntos sociais e políticos. Antes que os apressados acreditem que as minhas palavras decorram de afinidade política ou esportiva, importa ressaltar minha não comunhão com as ponderações jornalísticas de Casagrande, mas não posso deixar de reconhecer a importância histórica dos seus pensamentos e ações postas em prática para salvaguardar o próximo. 

A conversa de fôlego no palco é realizada sem mínima defesa ou constrangimento. Fala por dever. Fala para servir. Casagrande cumpre uma função social.

Lembro do Rabino Nilton Bonder, na sua obra A Alma Imoral, ao dizer que aprender um conceito pelo seu revés é fotografar a alma. 

Casagrande tem a responsabilidade de informar, não poder dizer qual o caminho correto à recuperação de cada pessoa em dificuldade, mas sublinha o que não fazer. 

Casagrande fotografa sua alma à plateia. A comunicação imperfeita deixa latente a posição de um ser humano desarmado, sem escape cênico ou alternativa dramatúrgica. 

Casagrande “morre na coxia” para sua pessoa física destrinchar no palco um campo de afetividade não ensinado às pessoas por aí.

Outro ponto interessante é perceber o silêncio político. Não há menção direta aos seus escolhidos ou doutrinação do público. Pelas transmissões esportivas e debates, tive a oportunidade de ouvir o Casagrande tecer comentários e confrontos com algumas pessoas. 

Confesso jamais ter ficado ao seu lado nas trincheiras mencionadas. Mas sua fala biográfica no palco do Guaíra encaminhou a todos desejosos de melhorar como seres humanos e acolheu os necessitados que estão em busca de uma mudança radical de procedência na vida.

Certa vez, um importante Rabino chegou de surpresa em uma escola e se deparou com a seguinte cena: de um lado, havia alunos a dormir um sono profundo. Do outro lado, havia alunos a estudar. O Rabino, sem pestanejar, disse: “Prefiro a forma verdadeira dos que dormem à desonestidade dos que estudam” (A Alma Imoral). 

É verdade, não estamos (ainda) diante de uma obra teatral perfilada por todos os seus labores. Mas não é o teatro um encontro intenso e comprometido com a vida? O palco é meio ou fim? 

O teatro não é ainda aquele espaço capaz de fazer a humanidade acreditar na existência e na presença do seu semelhante?

Óbvio que todos os grandes profissionais envolvidos chegarão e o espetáculo “Na Marca do Pênalti” atingirá tantos outros objetivos. Como, por exemplo, os aspectos simbólicos e os facilitadores do despejo narrativo. Mas a essência teatral foi vista por todos. 

Um ser humano exposto lembrou aos seus, por meio da boa contação da história da sua vida, valores fundantes e estruturais da existência humana. Que logo chegue tudo merecido. Mas até lá, aos mais afoitos, lembrem-se que o teatro se perfaz pelo encontro respeitoso entre um ser humano, uma história e uma plateia. 

Casagrande — a todo instante — respeitou o espaço cênico. 

Lembrem-se: é preciso coragem para bater e mais coragem ainda para não o fazer.

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