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Nós aqui, em deriva

Talvez viver é essa travessia que nos deixa a deriva, que deixa a coisa entrecortada. Para além das belíssimas cenas, talvez esse seja o imenso ganho da Travessia

Publicado

em

Foto: Bob Souza

por gabriel m. barros

Já se sabe que a terra é uma estrutura que vaga pelo espaço, meio que a deriva, meio que sem destino. Agora imaginemos essa cena: uma esfera imensa num infinito pairando. Vamos nos aproximando dela aceleradamente, atravessamos as nuvens, vamos passando, o planeta azul se exibindo, passamos pelas paisagens belíssimas, quase numa espécie de cena de documentário. 

​Imaginemos ainda que paramos sobre o Brasil. Que imagem sintetizaria o país? A 25 de março apinhada? O carnaval carioca? A lavagem da escadaria do Bonfim? O Mercado Ver-o-Peso? Foz do Iguaçu? Escolhi essas cenas deliberadas, que normalmente reúnem um contingente grande e diverso de gente, inclusive de pessoas que não são desse país. Me parece que essa imagem do encontro do diferente, é uma espécie de mote pra peça Travessia, dirigida por Gabriela Mellão e com dramaturgia assinada por ela, a partir da criação coletiva. 

​Me parece que nessa construção imagética, que toma o Brasil como esse barco em alto-mar, há belezas indescritíveis: a cenografia é lindíssima. Os atores constroem juntos, o que é ainda mais belo, quadros excelentes, que visualmente são duma singularidade que poucas vezes vi cenicamente. O mote para isso é um quadro de Théodore Géricault, A balsa de Medusa, quadro esse dum grupo de pessoas numa pequena balsa, alguns corpos já estão na água, estão amontoados. 

​Dessa premissa é como se a câmera, pensando ainda na lógica do documentário, vai passando de um passageiro para outro. Há cenas que envolvem todas as personas em algo comum, em outras o foco recaí sobre alguns ou apenas um. Porém, não é uma câmera de todo respeitosa, é como se fosse um plano sequência que não espera um texto ser finalizado para pular para o outro, depois regressa (nem sempre), num movimento que as histórias ficam entrecortadas, algumas terminam no seu ápice e aí o que fica é algo muito subjetivo: o próprio espectador atravessar esse mar e criar os links. 

​Entretanto, é sugestiva a inquietação: e precisa mesmo tudo ter conexão entre si? Estamos tão carentes e necessitados duma explicação e que tudo fique encadeado, explicitado e explicado? Mas não é próprio da vida que algumas histórias se fechem sem a gente nem a entender muito bem? Penso com isso, por exemplo, em quando ouvimos a conversa de celular de alguém no trem ou ônibus: só escutamos um dos lados, não sabemos a outra resposta, mas é a construção que essa pessoa que ouvimos dá para a narrativa que nos prende, ainda que ela salte na próxima parada, ou a gente nem termine de ouvir. 

Talvez viver é essa travessia que nos deixa a deriva, que deixa a coisa entrecortada. Para além das belíssimas cenas, talvez esse seja o imenso ganho da Travessia. Porém, queria ainda destacar uma outra miudeza: alguns dos textos são de uma beleza. Destaco um deles que é o do amor ser sempre algo estrangeiro. Me parece uma ideia que pode fazer muitas outras germinarem em nós. 

Finalizo ressaltando algo que me é bem caro e me parece que é essa a beleza do fazer cênico: colocar tudo a deriva! Se for possível contemplar a paisagem antes de saber onde se vai chegar, pois talvez nem cheguemos, melhor!  

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