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Festival de Curitiba

Nada é fim para “A Máquina”; tudo está em perspectiva e relação

Num último exercício, tento pensar sobre a estrutura que está presente no centro do palco, dentro do formato da arena. A circularidade/espiralidade do tempo é representada, tudo é começo, meio e começo de novo. Nada é fim.

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em

Foto: Flora Negri

por Carlos Canarin (@ocanariocritico)

A remontagem de “A Máquina” instaura desde o início um ritmo frenético e borbulhante. Estamos vendo o que podemos chamar de um “teatro de diretor”, quero dizer, um foco extremo no desenho da encenação, nas marcas quase rígidas que são orquestradas com excelência por João Falcão. A analogia com um cronômetro é interessante, se pensamos em primeira instância que as entradas, saídas e movimentos corporais (que são tantos!) precisam ser feitos com certa urgência e presença cênica do elenco; também se justifica essa imagem do relógio pela alusão dramatúrgica com o futuro e a brincadeira com o tempo, que mais uma vez aparece trabalho em um espetáculo do Festival. Para mim, o foco da peça é o desenho da encenação.

Se por um lado esse ritmo envolvente e quase próximo de uma pressa da comunicação, como se o espetáculo estivesse correndo contra o tempo, acaba por inaugurar uma coralidade vocal e corporal do grupo na contação da história, por outro penso que em alguns momentos informações relevantes da história acabam sendo perdidas ou passam batido, já que é tanta informação ao mesmo tempo que uma confusão polifônica aparece. Enfatizo as vozes pois não são as movimentações que chegam a incomodar; mas por não haver muitas pausas ou lugares de respiro, constato que o texto se dilui em vários momentos pela marca cênica.

Os quatro atores dividem a narração e o protagonista da história, adicionando diferentes tipos de personalidade para uma persona dentro de cada construção singular; já Agnes Brichta interpreta o interesse amoroso do protagonista, que acaba motivando toda a jornada do “herói” para mobilizar o maior desejo dela. Penso ser importante refletir que, mesmo com um intuito tímido de potencializar a personagem feminina, buscando atrelar a história com a disrupção dos lugares e destinos reservados às mulheres na sociedade, no final tudo parece ficar na mesma coisa. Ainda vemos um herói tendo que protagonizar uma narrativa, deixando quem mobiliza tudo em segundo plano. Vinte anos depois, poderíamos ter uma inversão? Como seria se quem fosse a protagonista, agora, de fato fosse Karina?

Dialogando com outras obras ficcionais que criam uma paisagem quase mítica para o Nordeste, fugindo de estereótipos para então construir outros imaginários positivos, o espetáculo também mergulha numa estética visual cheia de detalhes, especialmente quanto aos belíssimos figurinos. Me peguei em vários momentos observando as peças, notando como o trabalho artesanal parece ser celebrado, como um figurino de um brincante. A mistura de cores também é explorada, me lembrando a visualidade de um centro de cidade, onde existem as cores, mas com o passar do tempo elas desbotam, se misturam com outras, se apagam um pouco. Mas não deixam de existir por completo.

Num último exercício, tento pensar sobre a estrutura que está presente no centro do palco, dentro do formato da arena. A circularidade/espiralidade do tempo é representada, tudo é começo, meio e começo de novo. Nada é fim. Tudo está em perspectiva e relação. Mais do que um apelo estético, é a própria referência ao tempo. Certo, poderia ser usada de tantas outras formas que sobrepusesse essa relação velocidade-impulso-inércia. Mas o recado está dado.

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