Curitiba
Mostra Insubmissa ocupa o Fringe com teatro autoral mineiro e olhar crítico sobre o mundo
De 1º a 6 de abril, no Memorial de Curitiba, artistas de Juiz de Fora apresentam espetáculos que atravessam memória, literatura, religião e infância para tensionar estruturas e reinventar narrativas
Foto: Marcella Calixto
O que precisa ser desobedecido para que algo novo possa existir? Essa pergunta atravessa a Mostra Insubmissa, recorte potente da cena autoral de Juiz de Fora (MG) que chega ao Fringe da 34ª edição do Festival de Curitiba propondo fricções, deslocamentos e reimaginações.
Entre os dias 1º e 6 de abril, o Memorial de Curitiba se transforma em território de encontro para quatro espetáculos, além de cenas curtas, leitura dramatizada e música ao vivo. Apesar da diversidade de universos — que passam por cozinhas do interior mineiro, personagens que escapam da literatura, releituras de mitos religiosos e fabulações sobre a infância —, há um eixo comum: o desejo de tensionar estruturas dadas e abrir espaço para outras formas de existir e contar histórias.
Idealizada por artistas independentes, a mostra também afirma um movimento que vem de fora dos grandes centros. “Há um gesto de insubordinação que nos une, mas também a vontade de afirmar uma produção que nasce longe do eixo dominante e que carrega suas próprias urgências e modos de fazer”, aponta o dramaturgo e diretor Tairone Vale, um dos articuladores do projeto.
A programação evidencia esse trânsito entre linguagens e gerações. No espetáculo Doce Árido, três mulheres de uma mesma família atravessam o tempo a partir do trabalho cotidiano de fazer doce de leite. A cozinha, aqui, deixa de ser apenas espaço doméstico e se torna campo simbólico para falar de herança, sobrevivência e resistência. A montagem marca o retorno de Pri Helena aos palcos, ao lado de Rebeca Figueiredo e Layla Paganini.
A Trupe Qualquer, que já passou por Curitiba em edições anteriores do Fringe, reaparece com Um Homem Célebre, uma costura cênica construída a partir de contos de Machado de Assis. A peça desloca personagens e situações do autor para investigar temas que seguem pulsando — identidade, sucesso, fracasso e as contradições da experiência humana —, enquanto propõe uma leitura que também atravessa a negritude do escritor. A supervisão dramatúrgica é assinada por Pedro Kosovski, vencedor do Prêmio Shell de Teatro.
Já em Versão Demo, Tairone Vale assume a cena em seu primeiro monólogo para dar voz a uma figura pouco acostumada a narrar: o próprio diabo. Com humor ácido, o espetáculo revisita narrativas religiosas e coloca em xeque ideias cristalizadas sobre culpa, moralidade e livre-arbítrio.
Voltado ao público infantil e familiar, Como Cozinhar uma Criança parte de um jogo provocativo: em um programa culinário fictício, dois cozinheiros discutem se devem seguir uma receita que ensina a “preparar” uma criança. Inspirado na obra do escritor português Afonso Cruz, o espetáculo mistura teatro, música e comicidade para refletir, de forma lúdica, sobre a formação das infâncias e os caminhos possíveis para não endurecer no mundo. A montagem marca ainda a estreia teatral da Banda Trupicada.
Além dos espetáculos, a Mostra Insubmissa apresenta as cenas curtas Pharmakon e Memento Mori, a leitura dramatizada de Big Bang e um pocket show musical, ampliando o diálogo entre diferentes formatos e modos de criação.
O projeto também ganha desdobramento fora do palco com o lançamento do texto de Versão Demo em livro, publicado pela Helicônia Editora, reunindo a dramaturgia do monólogo com ilustrações de Bel Benetti.
Mais do que uma escolha de produção, o acesso às apresentações assume um posicionamento: todas as sessões adotam o formato “Pague Quanto Vale”. A proposta tensiona a lógica de elitização do teatro e convida o público a participar ativamente da sustentação da cena independente.
No Fringe, onde a diversidade de propostas é regra, a Mostra Insubmissa se destaca não apenas pelo conjunto de obras, mas pelo gesto coletivo de artistas que apostam na criação como forma de confronto — e também de reinvenção.
Serviço
Mostra Insubmissa – Fringe do Festival de Curitiba
Quando: 1º a 6 de abril de 2026
Onde: Memorial de Curitiba – Teatro Londrina
Ingressos: Pague quanto vale
Mais informações: www.mostrainsubmissa.com | @mostrainsubmissa

