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Lampejos 6: Saldo MITsp

Que bom que existem mostras que mais do que agradar o nosso gosto ou não, nos coloca em contato com o outro, nos coloca num espelho também. Nos tira de nós mesmos e coloca a gente dentro da gente, mas agora num outro eixo, ou desajustados mesmos. Por tudo isso, vida longa a MITspque acendeu esse fósforo em nós!

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Por gabriel m. barros

​Nota introdutória: não moro no centro de SP, moro em uma cidade vizinha, que me faz ficar em trânsito para as peças, normalmente entre 1h45 a 2h, somando ida e volta o tempo dobra, se coloca domingo, esse horário nem sempre pode ser calculado. Como o trajeto é longo, os lampejos saíram ao balanço do trem (talvez isso explique algumas coisas, ou não diga nada, não sei). Ademais, esse lampejo aqui está sendo feito no conforto de casa e espero que seja lido mais como uma crônica de uma semana do que propriamente uma crítica.

​Frequento a MITsp a alguns anos. Essa foi a primeira vez na condição de crítico. De quem sai de um espetáculo e precisa, em alguma medida, fabular sobre ele. Em uma semana (mais especificamente acompanhei de domingo a domingo, pela questão do trajeto mesmo), foram cinco espetáculos assistidos e o encontro com Édouard Louis, que aconteceu na segunda-feira passada (09/03). Soma-se a isso ter assistido ao espetáculo A pediatra, que estreou dia 12/03, quinta-feira (e que preciso fazer a crítica ainda), e ter ido no show da Silvana Estrada no sábado 14/03. Em resumo: semana cheia, tendo apenas como “pausa”, ou dia de resolver questões pessoais e burocráticas, na terça-feira. Soma-se a isso que em um dos espetáculos eu não possuía ingresso então precisei chegar mais cedo para fila de espera, às 17h, para uma peça que começava às 20h (sim, era a peça encenada pelo Louis, que se esgotaram como água no deserto). 

​Talvez o primeiro saldo seja do cansaço, mas morando longe, qualquer empreitada é cansativa por si mesmo. Aqui não é sobre cansaço que pretendo falar, pois haveriam outros tópicos a serem adicionados: a chuva que ficou sobre São Paulo durante a semana, as questões de estrutura da cidade e locomoção (mencionei elas ao longo dos lampejos, aliás, que fique registrado que é algo que sempre me atravessa e condiciona em grande medida minha maneira de lidar e estar no mundo). 

​Quero tratar de outra coisa, ao refletir sobre esse saldo. A primeira delas é sobre essa visão fragmentária que tive do MITsp, apenas assistindo aos espetáculos estrangeiros, por uma opção de tempo mesmo. Sinalizei no lampejos 3 que me pareceu uma mostra mais acuada, mais preocupada em trazer para si o público, de chamá-lo. Isso no que tange aos espetáculos estrangeiros. De fato, do que acompanhei por redes sociais e também por comentários é que os espetáculos brasileiros, sendo abertura de processo, sendo obras já fechadas, foram mais inventivos nesse aspecto. Ao que me parece, o Brasil conhece pouco o Brasil, ou melhor, o eixo paulista sabe muito pouco do que é produzido para além do eixo sudestino e tem perdido ótimas oportunidades de ampliar isso. A MITsp em alguma perspectiva tem tentado ampliar isso. Do lado do que assisti, infelizmente, a mostra pareceu mais fraca, menos ousada. Há muita coisa boa sendo realizada no âmbito internacional e me inquieta bastante o pouquíssimo contato que temos com o que tem acontecido na cena teatral latina, que conhecemos muito pouco. 

​Entretanto, mencionei aqui a ideia dos “comentários” que ouvi e esse me parece o grande feito do MITsp, ou melhor, de todo evento que tem uma certa periodicidade, que é a de congregar pessoas, de fazê-las se conhecer. Como sou alguém bem observador, sempre me é interessante ver como os rostos vão reaparecendo de um espetáculo para outro e é um pouco sobre isso que quero comentar, daí um pouco a ideia da crônica. 

​Encontrei por três vezes dois jovens que sempre chegavam bem cedo nos espetáculos, porém, sempre quando estavam anunciando o início do espetáculo é que entravam. Achei isso curioso, pois é sim nessas ocasiões que as pessoas se reúnem para fumar, conversar. Não digo que o espetáculo era um detalhe, embora não descarte a opção, e não acredito inteiramente nisso, pois foram alguns espetáculos que os encontrei. O fato é que o tempo do jovem é outro, a forma de lidar com os espaços são outros. 

​Um pequeno parágrafo para sinalizar que a orquestra de tosses está em dia. Isso diz muito sobre a potência dos nossos ares-condicionados. Nesse saldo de aprendizados, sinalizo a gripe que estou. 

​E há aqueles que puxaram assunto comigo. Quero utilizar o espaço para registrar dois idosos que muito me cativaram. Um foi o senhor O. que ficou emocionadíssimo em acompanhar a MITsp e de ver os debates acerca da sexualidade, da liberdade sobre, diante de sua própria história, que se deu, em grande medida, no espaço de se camuflar quem se era. Foi bonito de ver o senhor O. comentando sobre essa temática, rememorando seu passado e ligando com o tempo. Para além disso, partilhou comigo a indicação da obra Antes que anoiteça, do escritor cubano Reinaldo Arenas. Em contrapartida recomendei o romance A palavra que resta, de Stenio Gardel.

​Além do senhor O., também conversei muito com dona S. Ambos estavam numa empreitada de aproveitarem o máximo possível a mostra. Dona S. em um dos encontros comigo sinalizou sobre um espetáculo que viu (eu não o assisti, infelizmente), e inicialmente apontou que não gostou dele. A ausência de fala na peça a inquietou e achou longa demais. Depois disso, no dia seguinte, nos reencontramos, nesse acaso proporcionado pela mostra, e ela novamente retomou o dito espetáculo que não gostara. Isso me fez refletir e lembrar do quanto as obras que atravessam o nosso horizonte de expectativas, deslocam algo na gente. Primeiro, cria esse desconforto, depois se amplia para algo que segue martelando em nós, sem que saibamos muito bem como classificar isso. Porém, desenvolve em nós uma busca, errática e incerta, mas que coloca em movimento. Nesse sentido, foi lindo demais ver a dona S. em movimento, nesse que só a arte coloca. 

Desse arrazoado de cenas, o que fica é que a arte, o teatro, sempre inquieta. Daí nosso mundo se alargar, se agigantar na nossa pequenez. Que bom que existem mostras que mais do que agradar o nosso gosto ou não, nos coloca em contato com o outro, nos coloca num espelho também. Nos tira de nós mesmos e coloca a gente dentro da gente, mas agora num outro eixo, ou desajustados mesmos. Por tudo isso, vida longa a MITspque acendeu esse fósforo em nós!

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