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Opinião

Lampejos 5: Vigiada e punida

Com o espetáculo Safia sem citar recorre ao teórico que orientou o trabalho de Foucault no seu doutorado, Canguilhem, que ao tratar sobre o normal e normalização, vai mencionar que na saúde, na vida, no existir, cada corpo terá sua própria normalidade, cada corpo se estabiliza da própria forma.

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em

Foto: Maxim Paré Fortin

por gabriel m. barros

Por qual razão vamos ao teatro? O que há nele que move as pessoas a saírem de suas casas, a se deslocarem numa cidade com sistema público de transporte que aos domingos é lamentável, se sentar numa poltrona, aguardar o terceiro sinal e se lançar naquilo?

E a crítica? É extensão da peça? É conversa com ela? É um arrazoado de ideias que apontam pra dentro do espetáculo ou para o seu fora? Ou é só um espaço para vaidades, como o próprio teatro? Mas se há vaidade no teatro, ela é só para os que o fazem ou se estende para os que frequentam?

Estou a dois parágrafos postergando entrar na crítica do espetáculo Vigiada e punida, de Safia Nolin. O motivo é simples: a temática da peça tem uma proximidade intensa com minhas vivências.

Não que eu tenha recebido mensagens de ódio, como Safia recebeu. Da minha parte só obtive mensagens de ódio de alunos, que por várias vezes já quiseram que eu morresse, mas pouquíssimas foram ditas ou escritas diretamente para mim; em outra feita uma tia mencionou que professores deveriam morrer e a minha interpretação na ocasião foi mencionar a ela que “ela queria que eu morresse”, já que ocupo essa função, aquilo doeu, mesmo sendo distante. Enfim, se o indireto já me destruiu, imagine se fosse diretamente a mim.

Mas não é pelas mensagens de ódio que a peça chega em mim, e sim, principalmente, pelos comentários feitos a um corpo obeso. Quarto parágrafo, ainda não escrevi sobre a peça. Realmente ela tocou em pontos sensíveis em mim que talvez eu mencione nesses lampejos.

A peça toda é musicada. Não há nenhum momento um discurso recitado, pronunciado. A MITsp já trouxe em outra feita espetáculos que flertavam com a música, aqui me parece que foram mais radicais. Confesso que soou estranho, e isso não significa ruim, mas que deslocou algo.

Deslocou, pois não é somente músicas, embora seja, há toda um cenário (que é espetacular, um palco cheio de tapeçarias, dum colorido que a mim aludiu uma América Latina), o tipo de canto (sobretudo o canto coral), as cenas feitas enquanto se cantava (ao mesmo tempo que se mencionavam as maiores ofensas na música, duas mulheres obesas se banhavam e com a água quente depois comiam um miojo).

O vigiada e punida é alusão clássica a Foucault, e a discussão de que agora não se mata, mas se priva a liberdade, se tenta controlar o corpo. E no espetáculo há outro conceito do autor que pode ser acionado, que é o da microfísica do poder, desse poder comezinho, cotidiano, pequeno, daqueles que, pela internet, se sentem arautos de uma normalidade, de ditarem o certo e o errado, de controlarem o corpo, de insultarem, enfim, de se sentirem autorizados a incitar a morte. Assim, também se coloca em cena a biopolitica (fazer viver e deixar morrer) que, em verdade, no mundo cada vez mais assustador e julgador, põe no cotidiano em funcionamento a necropolítica (aqui é fazer morrer).

Com o espetáculo Safia sem citar recorre ao teórico que orientou o trabalho de Foucault no seu doutorado, Canguilhem, que ao tratar sobre o normal e normalização, vai mencionar que na saúde, na vida, no existir, cada corpo terá sua própria normalidade, cada corpo se estabiliza da própria forma.

Enfim, o espetáculo abre brecha pra pensar em corpos e sexualidades dissidentes e da intervenção que pessoas que não têm relação alguma com isso se sentem com liberdade suficiente para serem cruéis, vis e horripilantes. Com extrema coragem Safia expõe todos os nomes dos sujeitos que comentaram atrocidades para ela. Faz questão de registrá-los, e também de se questionar enquanto vítima e carrasca.

Também há a dimensão do amor: quem ama o corpo obeso? Quem o quer? Quem olha pra ele para além de um corpo a ser julgado? Isso se dá com todos os corpos? Sempre?

São dúvidas que o espetáculo colocou em mim, que me faço num espaço de uma existência.

Registro ainda que em vários momentos lembrei do livro Solução de dois estados, do Michel Laub, livro brasileiro, que trata de uma artista performática obesa que foi agredida em uma palestra e resolveu fazer um documentário ouvindo a artista e seu irmão, sujeito que não vê como problema a agressão, uma vez que as performances da irmã também foram provocativas.

Creio que cheguei até aqui registrando tudo isso para sinalizar que talvez eu não saiba fazer uma crítica sobre esse espetáculo. Seria falar de mim em várias camadas. Talvez já tenha feito isso. Que seja. Fica assim.

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