Opinião
Lampejos 2: A carta
Num tempo em que o familiar está em disputa (francamente, sempre esteve), é um assombro e deleite ver como ela, a família, é insparador de boas histórias e como ela é o elo entre real e fictício, entre concreto e sonho, entre a separação e a conciliação
Foto: Christophe Raynaud de Lage
Por gabriel m. barros
É dum deleite e alegria quando um espetáculo acaba e parte sua quer ficar ali, naquela história, e outra quer correr pra rua, ver gente, sorrir com elas, ou tomar uma chuva, como foi o caso de hoje.
A carta é de fato uma ode ao teatro. Um elogio delicado e bonito. São dois atores que escolheram o teatro como profissão e se uniram para pensar e propor sobre esse ofício. O mote é a carta de uma bisavó para a filha, avó do ator, que demonstram como um gesto se torna uma onda e afeta outras gerações também, para além de moldar a existência e escolhas dessa avó.
Outro ponto, que também é o fio condutor, repousa nos interesses dos dois atores: é assim, do encontro fortuito de duas pessoas, que nasce o elo, que para alguns pode parecer inviável, entre A gaivota, do Tchekhov, com a história da Joana D’arc.
Nesse encontro imprevisível, tal qual todo encontro da vida, gostos, opções e desejos distintos se fundem e vão dando luz a um espetáculo que costura vivências dos atores com os textos que lhes marcaram.
Se teatro é espelho da vida, aqui ele se torna a opção inclusive de remodelar o viver, de unir pontas distantes, de imaginar sobretudo. Tudo isso regado com a plateia, que é chamada para participar de uma maneira bem agradável. Aliás, aplausos para Bruno, figurante que passou as placas entre as cenas.
Um grande acerto, que é comum se verificar em peças estrangeiras em solo brasileiro, mas que aqui se destaca, é na preocupação de adaptar a peça ao seu contexto. Há vários gracejos com São Paulo, nossa fama de eleger fascistas, a peça ser realizada no teatro do Sesi. Essas pequenas sutilezas que o texto sofre para o contexto faz com que a gente, no mínimo, se sinta querido e aí desejamos participar mais ativamente do jogo que se constrói.
No saldo de ver essa segunda peça, em parte a curadoria do MITsp tem refletido sobre a memória. Num olhar mais acurado também se pode assinalar que há uma preocupação com a família na trama dessas peças. Para o bem ou para o mal a família ocupa um espaço fundamental nas memórias e na maneira de compreender o mundo.
Num tempo em que o familiar está em disputa (francamente, sempre esteve), é um assombro e deleite ver como ela, a família, é insparador de boas histórias e como ela é o elo entre real e fictício, entre concreto e sonho, entre a separação e a conciliação

