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Festival de Curitiba

“Jonathan” e sua herpetóloga fabulação

Rafael não precisa de muito em cena; o jogo está entre ele, o público e a iluminação.

Publicado

em

Foto: Roberto Carneiro

por Carlos Canarin (@ocanariocritico)

Eu não lembrava que o animal mais antigo do mundo é uma tartaruga enorme que tem nome de gente. O animal vive na ilha de Santa Helena, entre a África e o Brasil (e sim, esse é um simbolismo importante), um território inglês no Atlântico Sul. Entre notícias falsas recentes de sua morte, a tartaruga Jonathan completa 193 anos em 2026. É a existência de um ser tão antigo ~ e um olhar para si mesmo enquanto um jovem negro numa sociedade que dita seu destino desde o primeiro momento ~ que a obra protagonizada por Rafael Souza-Ribeiro, que também assina a dramaturgia da peça.

E antes de mais nada, esse parece ser um dos grandes acertos do espetáculo. Seu texto é afiado, engraçado, debochado, misturando devaneio, ciência e oralidade. A história da tartaruga é apenas um pano de fundo ao meu ver; interessa mais pensar como, dentro de uma sociedade genocida para com a população negra, por vezes é difícil fabular e criar histórias para uma juventude, já que o Estado legitima a morte ao colocar um alvo em suas costas. Se num primeiro momento a comicidade da comparação existe, é triste pensar que um bicho é cuidado, protegido e sua vida é preservada, ao passo que para humanos racializados a realidade é a precarização, a negação das oportunidades e um imaginário estático sem futuro.

Rafael não precisa de muito em cena; o jogo está entre ele, o público e a iluminação. Menciono que seu conjunto de trabalho corporal e vocal são instâncias admiráveis mas que não buscam um delineamento perfeito ou lógico; a proximidade com a realidade é talvez a maior potência. A brincadeira vocal proposta por exageros de fala, sonoridades e embocaduras do dia a dia escapam do que estamos acostumados a ver, mesmo num teatro contemporâneo. E ah, impossível não comentar sobre a luz de Paulo Denizot, que identifico ser de suma importância para nos transportar nossa imaginação ao cenário da ilha, onde um farol insuportável quase nos cega em alguns momentos ~ e isso não é algo negativo.

Apesar de gostar do texto, entendo que seria possível reduzir algumas partes do espetáculo, visto que mais para o final surgem cenas que poderiam funcionar como um ato de encerramento, escapando do lugar épico e grandioso que parece tomar a narrativa. Para além disso, entendo o desfecho e sua metáfora como pontos legítimos de uma fabulação, mas confesso que me veio uma vontade de pensar num futuro outro para Jonathan. Um em que os tiros não encontrassem seu corpo. Um em que seus sonhos pudessem ser realizados. Que ele pudesse encontrar outro lugar para viver fora daquela ilha, que estudasse, trabalhasse com o que gosta. Que pudesse ter um outro desfecho, o que também considero ser uma posição política. Mesmo assim, o saldo é positivo e percebo a crítica da obra habitar um lugar mais sutil e nas entrelinhas do não-dito do que de forma escancarada e panfletária, tarefa difícil numa geração que tem tudo mastigado.

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