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Carlos Canarin

“Humanismo Selvagem” e “Agropeça”: como exorcizar a branquitude?

“Humanismo Selvagem” e “Agropeça”: como exorcizar a branquitude?

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Por Carlos Canarin

 Como exorcizar a branquitude? Ou melhor: como utilizar uma das armas tecnológicas mais antigas da branquitude tropical para dominar outras populações minorizadas socialmente ~ essa tecnologia é o teatro ~ para exorcizar a si mesmo e ao seu grupo racial? O que acontece quando a arma está no sentido contrário? O gatilho será efetivamente puxado? Ainda assim, haverá esquiva? E qual o motivo de a lógica colonial ainda não ser rompida?

Demorei a escrever sobre “Humanismo Selvagem” (Bife Seco) ~ já faz dois anos que a peça estreou em Curitiba e retornou para outras apresentações pelo país este ano. Calhou de eu poder conferir “Agropeça” (Teatro da Vertigem) no último final de semana, e penso que as duas obras estão profundamente relacionadas, sobretudo na temática e na forma como a lógica da dominação racial tenta ser criticada em ambos os trabalhos ~ fruto, penso, de uma urgência de colocar tais pautas em questão. Se, por um lado, temos um teatro negro (stricto sensu) brasileiro fincado enquanto linguagem e área investigada há praticamente um século, um teatro branco engajado em se criticar e inverter sua própria lógica historicamente enraizada poucas vezes foi explorado em cena.

“Humanismo Selvagem” nos apresenta uma família do sul do Brasil que está prestes a comemorar o centenário de seu patriarca ~ que é praticamente um senhor de engenho. Construída em cima de personagens que são reflexos de arquétipos branco-burgueses em um admirável mundo novo tecnológico e pop ~ um estilo particularmente pesquisado esteticamente pela Bife Seco ~, tudo parece bem na lógica de violências presente naquele núcleo familiar de margarina, até que a ex-empregada da família, a única personagem negra, chega para a tal festa. Djane é o ponto central do conflito que se desenha até que a festa vire um enterro — à la Clodovil. Segredos ~ que não são lá bem segredos, mas sim a pura realidade brasileira ~ são revelados, até que nada pareça restar daquele núcleo familiar.

“Agropeça” também nos apresenta uma comemoração como mote para o desenrolar da história. É planejada uma festa em homenagem aos anos do Sítio do Picapau Amarelo e, para fugir do óbvio e aproximar-se das vicissitudes rurais, Pedrinho sugere a realização de um rodeio, o que é prontamente acatado por sua avó, Dona Benta. Esse Sítio não é aquele que a minha geração se acostumou a assistir pela manhã antes da TV Globinho ~ ele eleva a potência da violência racial, de classe, de gênero e de sexualidade a tons cada vez mais reais, como se a narrativa lobatiana pudesse ter sido gestada hoje. Isso tudo se soma à questão do agro, um braço forte do bolsonarismo, que persiste em sua “passada de boiada” enquanto estamos distraídos. Conforme o rodeio é transmitido, personagens como Tia Anastácia, Saci e Emília tentam romper com sua narrativa inicial, enquanto seus algozes se lançam em uma sucessão de disputas pelo poder.

Os pontos de convergência entre os dois trabalhos me parecem morar exatamente nessa tentativa de expor a branquitude e criticá-la, expor a si mesma e como as estruturas de poder e dominação persistem vitimando pessoas negras, trans e de classes subalternizadas da sociedade ~ raça, classe, gênero e sexualidade interseccionados. Mesmo assim, é visível como as personagens brancas parecem cativar mais o público do que as personagens não brancas e não normativas. As brancas fazem rir, pelo fato de a ficção ser espelho de uma realidade tão absurda que o imaginário já está repleto desses tipos. Em alguns momentos, possivelmente a revolta apareça, mas a construção feita em cima da comicidade escrachada em arquétipos me parece mais forte nos dois trabalhos do que a mobilização e reflexão política em torno disso.

Ao mesmo tempo, as personagens negras ~ Djane, Saci, Tia Anastácia ~ parecem mais antagonistas do que guias da ação dramática. São contraposições a personagens que fazem rir ~ já as figuras negras são críticas; em sua fala, existe a revolta, a dor, a urgência pela emancipação. Miriam Garcia Mendes, em “A personagem negra no teatro brasileiro”, já nos apontava a presença de tais personagens que, por possuírem esse lugar crítico em sua personalidade, numa dramaturgia que se importa em tornar seus algozes queridos, engraçados ou interessantes, acabam perdendo sua “força dramática” nesse embate. Eles e elas existem, possuem o discurso, mas não são potencializados e/ou cria-se uma sensibilização da audiência pela preferência ao delineado universal da branquitude. Sendo assim, a crítica está posta? Será que não se repete a mesma engenharia do inconsciente coletivo da branquitude, por sua vez racista, fazendo sua manutenção, mesmo que pelas entrelinhas?

Talvez o embate tão almejado não seja pautado em negros contra brancos ~ uma peleja de personagens brancos contra si mesmos, então? Não tenho resposta definitiva. Paira o desejo de acompanhar outras sessões desse exorcismo tão temido e que parece um tabu ~ haja água benta e palavras em latim para tanto.

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