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Cinema

Entre Rostos e Sombras: A Imersão de Aly Muritiba em Barba Ensopada de Sangue

Neste longa, fui particularmente surpreendido pela atuação de Gabriel Leone. Ele entrega um trabalho muito físico e contido, transmitindo o cansaço do protagonista sem precisar de grandes falas, algo que instiga muito como ator.

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Por Diogo Marcelo

Cheguei ao cinema para assistir a Barba Ensopada de Sangue sabendo pouco, ou quase nada, sobre os detalhes da produção. Essa “folha em branco” permitiu que o impacto fosse imediato. Logo nas primeiras cenas, fiquei bastante surpreso com a força das imagens e, principalmente, com a edição de som, ela não serve apenas como fundo, mas como uma ferramenta que nos faz mergulhar fisicamente na história, sentindo o isolamento e a tensão daquela vila litorânea. E está numa sala de cinema amplia e valoriza a experiência.

Acompanho o trabalho de Aly Muritiba já há algum tempo e gosto bastante da sua estética. Para citar alguns lembro-me bem de ter assistido a A Fábrica e quanto gostei da história e do trabalho, acompanhei a evolução narrativa em Ferrugem, a precisão documental em O Caso Evandro e, mais recentemente, trabalhos impactantes como Cangaço Novo e Deserto Particular. Muritiba, embora não seja paranaense de nascimento, é um cineasta que se consolidou e produz a partir de Curitiba, o que traz uma proximidade interessante com sua obra. Em sua nova produção, o curta América, ele continua explorando novas fronteiras narrativas.

Em Barba Ensopada de Sangue, obra baseada no prestigiado romance de Daniel Galera, é notável como a direção amadureceu sem abrir mão daquela crueza característica. O filme preserva a densidade inerente ao material original, traduzindo-a em uma experiência visual impactante que instiga o espectador a mergulhar no universo literário de Galera. A força da adaptação reside justamente nessa capacidade de sustentar uma narrativa robusta, que se sustenta com vigor tanto para quem já conhece a trama quanto para quem a descobre agora pela tela. Muritiba consegue traduzir o que parece ser uma literatura densa em cinema puro.

Neste longa, fui particularmente surpreendido pela atuação de Gabriel Leone. Ele entrega um trabalho muito físico e contido, transmitindo o cansaço do protagonista sem precisar de grandes falas, algo que instiga muito como ator. O ponto que mais me intrigou — e que confesso ter tido que pesquisar enquanto rascunhava esta crítica, foi a condição neurológica do personagem: a prosopagnosia. Eu não conhecia esse distúrbio, e descobrir que se trata da incapacidade de reconhecer rostos mudou minha perspectiva sobre a obra. No longa, isso vira uma metáfora poderosa: o protagonista busca a verdade sobre um avô que nunca viu, em uma cidade onde não consegue sequer gravar as feições de quem o rodeia.

Por fim, o que mais me marcou foi a experiência sensorial. O que tem me levado ao cinema hoje em dia é, justamente, a rara oportunidade de assistir a uma obra do início ao fim sem interrupções. Estar ali, sem parar por qualquer evento externo ou para simplesmente mexer no celular e checar redes sociais, torna a imersão em um filme como este algo muito mais profundo. Barba Ensopada de Sangue exige essa atenção e, em troca, nos entrega um suspense psicológico que reverbera muito depois que as luzes se acendem. É, sem dúvida, um dos trabalhos mais maduros de Muritiba e um prêmio merecido ao cinema nacional.

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