Colunista
Entre Raul e o ruído da plateia
Musical estrelado por Bruce Gomlevsky revisita a trajetória de Raul Seixas em formato intimista, mas a sucessão de celulares acesos, cochichos e distrações na plateia compromete a experiência teatral.
Foto: Helena Leão / Thais Andressa
Por Vanessa Ricardo
Mesmo sendo um dos gêneros mais queridos do público brasileiro e fundamental na formação de plateia, confesso que tenho certa dificuldade com musicais. Especialmente aqueles que se aproximam da linguagem da Broadway. Sempre preferi o modo brasileiro de fazer teatro. Nos últimos anos, inclusive, temos visto surgir uma safra de musicais que me agradam muito mais justamente por se afastarem da estética grandiosa e padronizada do modelo americano.
Raul Seixas – O Musical aposta em um formato diferente. Em cena, apenas um ator: Bruce Gomlevsky, que interpreta Raul em uma espécie de peça-palestra, intercalada por um tributo às canções do eterno Maluco Beleza. A caixa cênica se transforma em um apartamento, e o público acompanha uma noite — que atravessa a madrugada — revisitando momentos importantes da vida e da trajetória do músico.
Bruce é um grande ator e canta muito bem. Ainda assim, para quem busca uma aproximação mais direta com o personagem, a experiência pode gerar certa frustração. Em muitos momentos, confesso que me peguei procurando Raul Seixas no palco.
Mas preciso falar também sobre o comportamento da plateia. Fazia muito tempo que eu não me sentia tão incomodada em uma poltrona de teatro. Luzes de celulares pipocavam por todos os lados. Na quinta fileira, uma moça loira filmou praticamente todas as partes musicais do espetáculo. Atrás de mim, um casal comia — acredito que amendoim — daqueles saquinhos minúsculos que fazem barulho a cada movimento. Em outro ponto da sala, uma criança brincava com uma luzinha que lembrava aqueles sinalizadores de aeroporto.
Ainda assim, o que acabou de vez com minha concentração foi um casal duas fileiras à frente. Além de chegarem atrasados, passaram o espetáculo inteiro cochichando. O homem, de meia-idade, vestindo uma camiseta com a inscrição “Raulzito”, bebericava sua garrafinha de whisky, tirava fotos do palco e as mostrava com orgulho para a companheira.
Um pequeno caos — e, sobretudo, um desrespeito ao espetáculo, ao artista e ao público que estava ali para assistir.

