Festival de Curitiba
Entre o rigor técnico e a ausência de pulsação: “Dois Papas” à espera de vida em cena
Quando uma casa está toda em ordem, como fosse unidade mobiliada à venda, é linda, mas falta vida.
Foto: Zug Produções
Por Leonardo Talarico
Assisti ao espetáculo DOIS PAPAS, inserido na mostra Lúcia Camargo, no dia 06 de abril, no Teatro Guaíra.
A história é conhecida: diante das divergências com o Papa Bento XVI, o cardeal Jorge Bergoglio solicitou sua aposentadoria. Em movimento contrário, o Papa avalia renunciar. Diante de tantas pressões, Bergoglio é um candidato improvável. E, diante dessas circunstâncias, ocorre um encontro reservado e humano entre ambos.
A dramaturgia do espetáculo segue a película. Todos os atores possuem destaque pelo equilíbrio e capacidade conhecidas. Atores e atrizes realizam o mesmo espetáculo e apresentam diálogos e reflexões consistentes. A peça é uníssona. Todos estão a serviço do outro ator em cena e da plateia.
O figurino é bem cortado, com reconhecido valor estético e tem por condão assentar o público na realidade da obra e auxiliar atores e atrizes na instalação de suas personagens. O CENÁRIO monocromático e repleto de mobilidade foi pensado para deslizar a dramaturgia e apresentar um contraste estético gélido-neutro, permitindo que os intérpretes realizassem essa “oposição” oriunda da Antropologia Teatral. Apresento um caminho e, abruptamente, seguimos outro.
A trilha sonora, a direção de movimento, o adereçamento e todos os demais labores teatrais presentes na obra, a colocam em bom nível profissional.
Não há dúvida: é um espetáculo de fôlego.
Apenas lanço singelo olhar: a montagem é asséptica. O cenário monocromático espera a interpretação sanguínea dos atores chegar. Mas isso não acontece.
Acredito seja apenas uma questão de tempo, pois, mais soltos, esses elementos aparecerão. E todos os envolvidos são muito bons.
Quando uma casa está toda em ordem, como fosse unidade mobiliada à venda, é linda, mas falta vida.
Dois Papas é uma boa obra à espera de PUNCH.

