Festival de Curitiba
Enterrados no verbo: resistência e vazio em Dias Felizes
O espetáculo possui também por mérito avocar uma reflexão a respeito da condição humana, com interferência direta do tempo e da persistência consciente do vazio existencial.
Foto: João Gabriel Monteiro
Por Leonardo Talarico
A Armazém Companhia de Teatro apresentou no FESTIVAL DE CURITIBA o espetáculo DIAS FELIZES, de Samuel Beckett. Enterrada até a cintura (e até o pescoço), Winnie luta contra o colapso apegada ao conteúdo da sua bolsa. Resta submetida a um despertador sem tréguas e a um sol impiedoso, onde se constróium processo cruel, no qual cada palavra articula delírio e esperança. O texto de Samuel Beckett não se oferece à plateia. Exige atuação do público. Armazém, conforme sói acontecer, não realiza escolhas frágeis. O espetáculo não se resolve — ele ecoa.
A estrutura da protagonista apresenta múltiplas camadas e matizes que exigiu, por óbvio, muito aprofundamento dos operadores teatrais da companhia. A personagem, seja pelo aspecto fático ou simbólico, deixa rastros à formatação. Há um eco evidente. Uma notória sensação de resistência, percepção e posicionamento. O verbo – deveras utilizado em fragmentação e demais recursos – demonstra ainda ocupar a palavra um gesto profundamente humano. Dias Felizes é um espetáculo “de ator”. Tudo está centrado na capacidade da atriz fazer andar a dramaturgia. E, nesse espectro, a direção age com inteligência e coragem ao provocar uma organização cênica minimalista, impondo ao público lidar com as dificuldades inerentes de uma obra fechada.
Winnie, enterrada progressivamente, é a imagem contundente de certa condição humana: menor movimento, expansão do discurso. A personagem verborrágica tenta organizar o caos através do verbo. Beckett entende, por vezes, a fala como um elemento de sobrevivência. Patrícia Selonk, em mais uma oportunidade, constrói e apresenta uma personagem com pertencimento e horizontalidade na comunicação com o público. A agilidade de perpassar pelas energias mineral e animal da antropologia Teatral, mesmo ausente movimentação cênica, é realizada com primor.
Por outro giro, o excesso de texto não afasta a máxima de que o ator é o que ele pensa. As expressões não estão postas apenas para ratificar as palavras. São processos distintos de rara competência. A direção opera na dilatação do tempo, foca na escassez de acontecimentos, nega a tradicional progressão dramática e age em suspensão. É possível constatarmos a substituição da “ocorrência”pela “permanência”. Não se poupa a plateia dos elementos centrais como a repetição, fragmentação, vazio e espera. Não há concessões ao público. Ao contrário, contam com a inteligência da audiência para compreender uma consciência dilacerada entre certa lucidez do esgotamento e a necessidade da produção instintiva de sentido.
O cenário-instalação segue a pretensão dramatúrgica. É muito bem construído de forma estética, factual e simbólica. Os adereços assumem uma função simbólica e de manuseio ritualístico na esperança de se ajustar o caos. Willie age como ator que substitui a interpretação gramatical pela interpretação psicológica. Pensa e atua em fisicalidade, gerandocontraponto à comunicação verbal. Patrícia Selonk caminha para o destino. Assenta no verbo, tensiona sua musculatura e alarga sua presença física. O soterramento é o esvaziamento da prospecção interna.
O espetáculo possui também por mérito avocar uma reflexão a respeito da condição humana, com interferência direta do tempo e da persistência consciente do vazio existencial. Por mais soterrados, buscamos sobrevivência psíquica apoiados em circunstâncias periféricas de forma fragmentada e repetitiva. A perturbação provocada pelo silêncio e a estagnação é combatida pela fragmentação, repetição de falas e manipulação de objetos. Willie é construído para intensificar em revés a protagonista.
Trata-se de um eco, uma ausência indicativa de que ninguém salva ninguém. A Companhia Armazém, com muita qualidade, acompanha a resistência humana à finitude. Dias Felizes é título e meta diante uma normalidade que já não se sustenta. Ser ou não ser? Estar ou não estar? A direção de movimento marca movimentos fáticos e simbólicos. Todos os labores teatrais agem em auxílio à montagem, geram unidade e potencializam a contação da história. Os figurinos são utilitários. Os adereços possuem foco simbólico e valor estético. A trilha sonora reforçatudo exigido pela obra e adaptação. Se observarmos cenário, figurino e adereços, de forma conglobante, temos uma aridez articulada com a estética pontuando esperança.
Uma circunstância interessante provocada pelas posições físicas estabelecidas pela direção gira em torno da impossibilidade escapista. O espetáculo convoca todos à permanência. Ocorre, conforme dito em momento anterior, uma transferência da ação física para a ação psicológica. Não se trata de um espetáculo palatável. A dispersão ocorre pela dificuldade da linguagem da protagonista e, também, pelo medo de lidarmos com os vazios que nos sustentam.
Beckett aponta contradição até o momento atual da sociedade. Só que de forma mais sofisticada. Postagens aqui e acolá perambulam entre o que se vive e o que se diz viver. Beckett exige e a Companhia Armazém não arreda pé. O irlandês escreve um escândalo pactuado com o tédio. Uma mulher enterrada aos poucos em perversão metafísica. O espetáculo transcorre com extrema categoria.
É preciso ouvir o espetáculo como uma reza, sincera mentira, falas abafadas diante do próprio desespero de perceber as palavras que já nascem mortas porque já não há o que dizer. Por derradeiro, a crueldade de uma alegria insistida. Somos capazes, enquanto plateia, de reconhecermos na protagonista a nossa existência? Enterrados até o pescoço nas ilusões existenciais,repetições gestuais e de verbo para atravessar os dias.
Há clímax? Ou uma repetição lenta, cruel e irremediável cujo grito interno – a cada dia – reduz o ímpeto. Uma obra contundente, montada no nível do seu autor, representado pela melhor atriz cênica brasileira e conduzido por uma direção cirúrgica. Sei não ser fácil dominar tantas filigranas, mas abro sorriso àqueles hoje mais conscientes dos seus pontos fulcrais e estrutura biográfica após a excelente apresentação. Trata-se de mais uma obra edificante da Companhia Armazém de Teatro.

