Teatro
Do Catatau à canção, Cabaré Haikai revela Leminski em suas múltiplas facetas
O resultado é uma peça que revisita múltiplas facetas de um dos escritores mais inventivos do século XX, em um tributo que une reverência e irreverência.

por Vanessa R Ricardo
Um cabaré em sua máxima representação? Talvez. Mas, pensando bem, Cabaré Haikai é antes de tudo uma homenagem profundamente leminskiana. A montagem, criada em celebração aos 80 anos que Paulo Leminski completaria em 2024, tem dramaturgia de Estrela, filha mais nova do poeta em parceria com Eduardo Ramos e Roddrigo Fôrnos, que também assina a direção. O resultado é uma peça que revisita múltiplas facetas de um dos escritores mais inventivos do século XX, em um tributo que une reverência e irreverência.
Antes mesmo de as cortinas se abrirem, a atriz Michele Bittencourt ocupa o palco em um solo intenso. Traz à tona fragmentos de Anseios Crípticos (1986), obra em que Leminski advertia sobre os perigos de reduzir a arte a mero artesanato, domesticada para atender à lógica burguesa de consumo. A cena funciona como manifesto: a arte, para Leminski, só faz sentido quando rompe padrões, assume riscos e abre caminho para novas invenções.
Na sequência, Ane Adade, Michele Bittencourt, Renata Bruel e Kauê Persona mergulham em Catatau, ao encarnar René Descartes em seu delírio tropical. O texto fragmentado, sem linearidade, ecoa o fluxo de consciência do livro: trocadilhos, choques de linguagem e a mistura entre o erudito e a oralidade brasileira. O palco se transforma em laboratório vivo de experimentação poética.
Entre os destaques, Kauê Persona dá corpo ao próprio Leminski em diferentes passagens. Sozinho no palco, revive trechos da célebre entrevista concedida ao jornalista Aramis Millarch, revelando um Leminski apaixonado pela música. A montagem resgata também sua trajetória ao lado da banda A Chave, espaço em que o poeta consolidou sua faceta de letrista, experimentando a fusão entre palavra e melodia.
E se teatro e poesia já se entrelaçam, é a música que amarra o espetáculo em sua plenitude. A banda, formada por Magaly Bentes (cello), Ander Lima (violão e guitarra), Marcelo Oliveira (metais, clarinete, clarone e flauta), Rodrigo Henrique (teclado e arranjos) e Vina Lacerda (percuteria), sustenta a cena com arranjos de vigor e delicadeza. O elenco canta, declama, atravessa gêneros, sempre embalado pela ideia leminskiana de que um dia todos os seres humanos seriam músicos.
Entre tantas camadas, um momento arrebatador, Ane Adade interpretando Se Houver Céu, canção composta por Leminski e gravada em 1985 pela banda Blindagem. A entrega da atriz-cantora transcende a execução, deixando a plateia suspensa em silêncio, num daqueles instantes em que a arte cumpre sua função maior: provocar emoção e pensamento.
Cabaré Haikai é, ao mesmo tempo, homenagem, celebração e reinvenção. Não se limita a revisitar a obra de Leminski; propõe um diálogo vivo entre poesia, teatro e música. Um espetáculo que não embalsama o poeta, mas o devolve ao público com a mesma energia inquieta e transgressora que marcou sua vida e obra. E talvez seja esse o maior acerto da montagem: lembrar que Leminski continua, como sempre, à frente de seu tempo.
Foto: Chico Nogueira