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Cinema

Celebrar a derrota do cinema brasileiro é celebrar o próprio apequenamento

Entre polarização política e ataques à cultura, a repercussão do Oscar revela um problema antigo: a dificuldade de parte do país em reconhecer a grandeza da própria arte.

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Por Vanessa Ricardo

Jornal A Cena completa, no mês de abril, 13 anos de história. E, mesmo com tantas dificuldades ao longo do caminho, nunca desisti. Escolhi o jornalismo cultural porque sempre amei falar sobre música, teatro e cinema. Foi a forma que encontrei de levar ao mundo, pelo menos a partir de Curitiba, e agora também para São Paulo e Rio de Janeiro notícias que celebram a arte.

Sempre acreditei na importância da arte e da cultura na transformação da vida das pessoas. Quantas histórias não conhecemos de gente que teve a vida transformada depois de começar a fazer teatro, música ou qualquer outra manifestação artística? Sem dúvida, a cultura nos torna pessoas melhores.

Costumo evitar falar de política aqui e também nas minhas redes sociais. Mas é evidente que tenho minhas posições. Ainda assim, usar a polarização política que o país vive — e que não é de hoje — para comemorar como se fosse final de Copa do Mundo o fato de o filme O Agente Secreto não ter levado o Oscar ultrapassa todos os limites. Isso é assumir um tipo de vira-latismo que revela desconhecimento sobre o poder e a importância da arte e da cultura.

O Brasil e o cinema brasileiro não perdem por não levar o Oscar. Ao contrário: fizeram uma campanha lindíssima, que levou pessoas de vários países a conhecerem um filme gravado em Recife e a se interessarem pela nossa produção audiovisual. Além disso, o longa conquistou prêmios importantes, como o Globo de Ouro e Festival de Cannes.

Também é preciso lembrar que o Oscar é um prêmio da indústria americana. Não levar a estatueta de Melhor Filme Internacional — que acabou com o belíssimo Valor Sentimental — ou ver o prêmio de Melhor Ator ir para Michael B. Jordan, que interpretou gêmeos e se tornou o sexto homem negro a conquistar a estatueta, não diminui em nada o cinema brasileiro.

Da mesma forma, a indicação de Adolpho Veloso ao Oscar de Melhor Fotografia por Sonhos de Trem já é histórica: foi a primeira vez que um brasileiro chegou a essa categoria. E a vitória de Pecadores, que consagrou a primeira mulher a receber a estatueta de fotografia, também é um marco importante para o cinema.

Entendam: isso não é derrota. Derrota é comemorar que o Brasil não ganhou.
Quando alguém celebra isso, quem perde não é o cinema brasileiro. Quem perde é você.

O Brasil é referência mundial em cultura e arte. Seja no cinema, no teatro, na música ou em qualquer outra manifestação artística, nossa produção sempre dialogou com o mundo e ajudou a moldar a história da cultura contemporânea.

Por isso, quando alguém desvaloriza a nossa própria produção cultural, não é o Brasil que diminui. Pelo contrário: quem se apequena é quem não consegue reconhecer a grandeza da arte que nasce aqui.

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