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Colunista

Atuar sobre as ruínas do ofício

Publicado

em

 

por Noah Mancini

 

Foi a Lady Gaga que disse outro dia: “eu vivo pelos aplausos”. E assim disseram muitos outros, assim como continuarão dizendo e os aplausos também virão. Essa relação entre o intérprete e o reconhecimento público constitui também um dos eixos que atravessam A Palma. Qual o som de um aplauso com apenas uma palma da mão?

 

A convite de Verónica, fui assistir A Palma, no Instituto Capobianco, que já está em sua segunda temporada. Não imaginava que estaria diante de um trabalho desses. Alguns do público desde o princípio já estavam em gargalhadas, talvez por conhecer anteriormente a obra, talvez por genuína identificação com o que se apresentava. 

 

And the great prize goes to… o espetáculo inicia-se com Vânia Souto (interpretada magistralmente por Gilda Nomacce) em um discurso de premiação cinematográfica. Ela está trajada em um elegante vestido branco, tira do bolso um papel tão dobrado que está quase amassado, um pequeno reparo de durex, e começa a proferir os agradecimentos em inglês. O estrangeirismo intencional diante de uma premiação gringa já é o presságio para os humores por vir. 

 

Sérgio Capanema (Donizeti Mazonas) é quem rompe o delirante discurso de Vânia. Sérgio, amigo de longa data da atriz, entra pela janela, de acordo com a marcação – ou invasão domiciliar para salvar a amiga dessa bucha que ela se meteu. Sabemos que algo de errado aconteceu, mas não temos ciência do que ao certo é. Parece uma confusão, alguma história mal contada. 

 

O texto inteiro da peça está recheado de um subtexto irônico. As personagens, pessoas atravessadas pelo ofício da atuação, proferem palavras, desejos e frustrações que refletem sobre teatro, cinema, televisão, sobre a arte de interpretar. Vamos pouco a pouco capturando suas trajetórias e as respectivas especificidades, onde o comentário sobre o próprio texto está presente nas entrelinhas.

 

Amalgamado nisso tudo, fiéis acompanhadores desses sujeitos, está a decadência, a promessa do sucesso, o anseio para os incertos próximos passos. Um equilibrismo entre o mel e o fel, as doçuras e as amarguras. Algo que vem no fim, como a luz no túnel. 

 

As personagens histriônicas são o prato cheio para o estado cômico que a peça entrega desde o princípio. Estamos diante de alguns estados catárticos e reflexivos desses atores mais ou menos delirantes. Entre rememorações de um passado promissor nos saudosos anos dourados que eles viveram, na descoberta dos motivos e consequências de um conflito que acabara de acontecer antes da peça começar, no relato sentimental que revela quem são aqueles que assistimos, tudo isso recheado por uma interpretação meio histérica, mas também cheia de nuances. Destaque para Vânia defendendo a capacidade poética de Marta quase em berros, quando completa a frase: “… no tribunal!” em tom completamente diferente. 

 

Tais peculiaridades de cada personagem, quando praticadas em cena, trazem um toque a mais para a construção dramática de cada um. Detalhes tão pequenos de nós dois. Como Marta, toda vez que vai procurar algo em sua bolsa, vira ela completamente de cabeça pra baixo. Logo, todos os objetos que ali estão, caixas de remédio, bingas de cigarro, cosméticos, tudo cai no chão. O celular de Marta pode ser as pernas de alguém, uma mala aberta, o veículo menos óbvio que a frente está. 

 

Tal recurso também se exemplifica com Vânia, que entrega o óculos para Marta, a mala para Sérgio, e quase vai como quem parte, mas em um segundo volta atrás – e pega os objetos que havia acabado de dar. As cenas são feitas entre uma contenção e um extravaso que configuram a sensação humorística de imediato. Essa hilaridade lubrifica a peça em seus mínimos detalhes, para dar o ar de algumas graças. Os nomes e sobrenomes de personagens que nem entram em cena ou particularidades sórdidas de situações pregressas que os três viveram. 

 

O elenco está muito bem afinado, e isso sustenta a elegância do trabalho. Sérgio, Vânia e Marta são amigos de muitos outros carnavais, não poderia ser diferente. Os atores possuem uma sintonia onde nenhum destoa e todos vestem os papéis lhe dados. Essa harmonia do trio funciona amistosamente durante toda a peça, contribuindo para a harmonia dramatúrgica, onde os arranjos e desarranjos vivenciados nos parecem genuínos, apesar dos personagens possuírem seus naturais excessos. 

 

Marta (Verónica Valenttino) é uma advogada, ex-atriz. Afinal, como a mesma diz, nem todos têm a sorte, as costas quentes, ou outras circunstâncias necessárias para seguir no ofício de ator. Mas isso não a escusa de ser uma polivalente artista em pleno tribunal. Não precisa dizer que a interpreta de maneira sublime, sendo um dos pontos altos da peça Verónica cantando Gota de Sangue (popularizada por Ângela Ro Ro), envolta em um tecido vermelho de paetês.

 

Vânia Souto é uma atriz, “um ícone da sua geração”, como disse Marta. Ela vive certo momento de ostracismo depois de uma áurea carreira e anseia por um reconhecimento (e oportunidades de trabalho) que devolvam o ar fresco de seus anos dourados. Espera em seu apartamento um telefonema, um convite, que a faça sair do esquecimento. Chega até a fazer um teste de publicidade, o qual falha miseravelmente – e se demonstra o catalisador de todo conflito que desembola diante de nós. 

 

Sérgio Capanema é o único dos três que se sucedeu razoavelmente. Em seu figurino, um roupão personalizado com suas iniciais. Faz televisão, e namora um rapaz mais jovem que ele. Rapaz esse que demonstra ser também seu potencial algoz. Sua presença em cena é marcada por uma atitude de aparente segurança. O personagem funciona como contraponto aos demais, pois encarna uma ideia de êxito que se mostra instável e dependente de circunstâncias externas. Essa ambiguidade contribui para complexificar o trio, deslocando a noção de sucesso para um campo igualmente precário e sujeito a desgaste.

 

A cenografia é pontual e precisa. Existe uma redução consciente dos elementos cenográficos, que, quando utilizados pontualmente, maximizam a experiência espectatorial. Como o grande tecido estendido de tapete para Vânia caminhar, ou até mesmo os buquês de flores pendurados no teto, ou a porta mais ou menos transparente que funciona como um portal do mundo lá fora.

 

Um vaso sanitário branco posicionado em uma escada como pódio. Roupas de um antigo acervo saem de dentro dele. Memórias são evocadas, cenas que aquelas personagens outrora interpretaram são refeitas, eles avançam, rebobinam.

 

A trilha também se mostra bem pensada, seja numa tradução livre de Dancing Queen, do conjunto Abba, ou nas sobreposições de vozes e sons ambientes em prelúdio e interlúdios, ou talvez até no chiado do som de um LP tocando ao fundo. Todos esses recursos sonoros nos tornam imersos em tal atmosfera delirante.

 

É como se a dramaturgia risse dela mesma, jocosa aos lugares comuns de sua própria coreografia, aos maneirismos discursivos que se repetem pelos chichês e verdades, numa singular ode à característica poética da atoralidade – como no momento onde citam Teuda Bara, Hilda Hilst, Paul Preciado, José Celso Martinez.

 

Há outros pontos altos, que nos seduzem pela atenção às arestas do espetáculo. As poses de Sérgio se contorcendo para tomar o floral de Vânia, a cena onde Marta fuma um cigarro jogada na poltrona, o diálogo de Vânia com seu diretor, os fantasmas do passado expurgados como farpas, e sua declamação de um Bonde Chamado Desejo. 

 

A plateia também em alguns momentos era provocada. Como Marta quando se engraça com “Pitel”, um boy que encontrou entre os assentos dos espectadores. Eles se beijam ao som de aplausos e assobios. Perguntas nos são feitas, como se bastasse nosso assentimento para a continuidade da trama. 

 

Na cena final, Vânia retorna à cena num vestido vermelho armado, cheio de babados. Pega um buquê de flores, se desvencilha do vestido, e nua some em meio à plateia. O vestido lá fica, imóvel, ereto e vazio, sustentado por uma estrutura, mas sem o corpo para vesti-lo. O mecanismo teatral está exposto, e posta sobre o tablado está a relação entre representação e ausência, do ator como elemento central, mas também transitório, da cena.

 

Nesse sentido, A Palma articula humor, comentário metateatral e observação crítica. A direção e o elenco demonstram domínio rítmico, e condução das nuances. Além de nos narrar diversas histórias íntimas, o espetáculo examina ludicamente tensões e joga com os excessos e contradições em cena.

 

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Ficha Técnica:
Texto: Claudia Barral e Marcos Barbosa
Elenco: Gilda Nomacce, Verónica Valenttino e Donizeti Mazonas
Direção e argumento: Mariano Mattos Martins
Assistência de Direção: Isabel Wolfenson
Cenografia: Paloma Mecozzi
Figurino: Rogério Romualdo
Trilha Sonora: Negro Leo
Iluminação: Wagner Antônio
Equipe técnica de Iluminação : Débora Pereira, Guilherme Mascarenhas e Júlia Fávero
Preparação Corporal: Danielli Mendes
Colaboração artística/voz do Host : Daniel Passi
Gravação, Edição e Mixagem de Áudio: Rodolfo Dias Paes – Dipa
Operação de Som: Jean Rebeldia
Coordenação de Produção: Dani Correia
Produção Executiva: Tayná Cabral
Assistência de Produção: Dea Millene
Acompanhamento de processo: Larissa da Matta
Coordenação técnica : Rafael Matede
Cenotécnico: Jhonatta Moura Barreto
Assistência de desenho técnico: Lara Paim
Costura: Viní Nara, Salete André

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