Opinião
As contradições inatas que habitam a epiderme em “Raçudas”
Durante a peça, acompanhamos Saravy na tentativa de entender sua posição racial, perpassando para isso componentes como a ancestralidade negra e indígena que tem em sua família, como a sociedade a vê, e como ela mesma se vê dentro de tudo isso.
Foto: Isa Lanave
Por Carlos Canarin
@ocanariocritico
Talvez uma das problemáticas mais espinhosas que existam hoje dentro da militância negra brasileira seja o colorismo. A ideia de privilégios e desvantagens que acontecem também dentro das diferenças de uma mesma cor por vezes dá origem de um lado a aprofundamento de debates e denúncias acerca do genocídio, do acesso e da sobrevivência; por outro, damos de cara com outros tipos de exclusão, confusão e a necessidade primordial de pertencimento (que vou preferir usar, ao invés da “afirmação da identidade”).
Como reflexo de seu tempo, artistas negras e negros vêm tentando trazer também essa discussão para o teatro, afinal o conceito parece não ser amplamente conhecido em sua profundidade, mas difundido como uma ideia única. Se de um lado temos o espectro branco, de outro estaria o preto. No meio disso, o pardo, um entremeio, um limiar, uma fenda. Na busca pelo pertencimento, por vezes a população parda, que perfaz junto com a população negra a maioria no território brasileiro, se vê e não se vê; esse não-lugar é reafirmado constantemente. Em meio a uma História marcada pela eugenia, pelo embranquecimento e pelo racismo em seus mais variados sentidos, pardo é um significante racial atribuído a pessoas negras não-retintas, com o tom de pele menos escuro. Ser pardo é ser negro, afinal.
E penso que esse problema está associado também à regionalidade. O racismo se intensifica conforme passeamos por nosso território. Se no sul a régua é a brancura extrema, no norte pode ser o contrário. E é por isso que vemos no Paraná, por exemplo, pessoas visivelmente brancas (falo aqui de seu fenótipo) concorrendo a vagas de cotas para pessoas negras numa universidade pública, pelo motivo de não serem “tão brancas” como seus familiares. Lia Schuman em “Entre o encardido, o branco e o branquíssimo” reflete exatamente sobre isso, as contradições que existem até mesmo dentro do espectro branco. E a culpa disso tudo parece estar na miscigenação, resultado de processos sistemáticos de violência inclusive sexual durante a invasão europeia. Ainda assim, como se classifica essas misturas que fogem da brancura? Como as pessoas se veem antes dessa institucionalização racial/étnica? Como se espera que pessoas negras e/ou indígenas tenham um letramento racial sendo que o próprio sistema nega a nós o próprio acesso e permanência em ambientes de educação e socialização?
Tudo isso para chegar em “Raçudas”, solo de Saravy que estreou ano passado em Curitiba. A premissa da peça é discutir, penso eu, exatamente isso: as contradições da ideia de raça, partindo do corpo da atuante. A direção é assinada por Sueli Araújo e a dramaturgia, pelas duas artistas. Durante a peça, acompanhamos Saravy na tentativa de entender sua posição racial, perpassando para isso componentes como a ancestralidade negra e indígena que tem em sua família, como a sociedade a vê, e como ela mesma se vê dentro de tudo isso. A linguagem proposta é a de um teatro que flerta com a performance, com o documento/arquivo e com a palestra.
O racismo tropical é fenotípico, e isto se refere aos traços de seu corpo, sobretudo a sua cor. E isto é importante porque, mesmo que sua mãe ou pai sejam fenotipicamente negros, você pode não ser. Você pode ser uma pessoa afrodescendente. Mas fenotipicamente, não é negro(a). E isto muitas vezes não está dado, sobretudo em famílias onde existe uma união interracial. Já na questão indígena muitas vezes está relacionada com a união entre corpo e ancestralidade, para que uma pessoa possa se reconhecer como tal. E isto, por vezes, também não está dado.
Em “Raçudas”, penso que existem duas partes fundamentais que poderiam ser melhor exploradas na encenação, e elas dizem respeito ao público e às contradições que daí decorrem. O momento onde ouvimos entrevistas feitas pela equipe com transeuntes no centro da cidade é de uma riqueza sem igual, pois está ali exemplificado, exposto: pessoas pretas não se vendo como tal, pessoas brancas se vendo como negras, enfim, como o operante raça se manifesta na construção de nossos afetos e de nosso pertencimento. E isso não tem como se dar de uma maneira linear, fácil, inata. Ela é cheia de tensão e permeada por nossa trajetória.
Outro momento que poderia ser destrinchado cada vez mais é quando, após uma aula sobre a “evolução” do censo, a atriz abre para que o público se manifeste racialmente. Penso que poderiam ter surgido outras brechas interessantes e que pudessem mostrar mais a vulnerabilidade da questão, pois ouvi de uma pessoa fenotipicamente branca que não se considerava como tal, mas sim como “brasileira”. Percebe como a questão é espinhosa e está relacionada à necessidade de pertencimento? E como por vezes a branquitude precisa criar ou se apegar a uma ideia que seja mais “interessante” do que se racializar como branca? E aqui abarca brasileiro, latino-americano, e por aí vai…
Esses dois momentos me enchem os olhos porque quebram com uma estrutura engessada que é a da peça-palestra e do teatro documental, que acabaram invadindo o teatro com uma linguagem e estética reconhecíveis desde o primeiro momento. E por isso possam soar redundantes para quem assiste, pois o debate poderia ser aprofundado, mesmo com o medo do vulnerável e do erro, pela imprevisibilidade que é o encontro proporcionado pelo teatro. É aí que, talvez, possamos discutir tanto o colorismo como raça, cotas, privilégios e desvantagens, mais do que somente sermos ensinados e educados a algo. Não que isso seja irrelevante, mas a pedagogia que existe no diálogo e na “invasão” da plateia parece ser mais do que educacional, mas possivelmente uma transformação política.

