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Festival de Curitiba

Abertura do 34º Festival de Curitiba: espetáculo ou distanciamento?

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Foto: Luísa Vieira

Por Vanessa Ricardo

A abertura do 34º Festival de Curitiba foi anunciada com entusiasmo pela produção. Em 2026, a proposta ampliou o acesso: não apenas convidados, mas também o público pagante pôde conferir o “espetáculo”, desdobramento de uma ideia apresentada na edição anterior, quando Milton Cunha assumiu o papel de mestre de cerimônias.

A chamada “peça-palestra”, construída a partir da presença de representantes das escolas de samba do Rio de Janeiro, surge como uma proposta instigante. Mas a pergunta que permanece é: funcionou?

Não se trata de negar a relevância da iniciativa. Ao contrário, há um mérito evidente na tentativa de aproximar o Festival de Curitiba de linguagens populares, movimento já ensaiado em edições anteriores, como quando o evento trouxe, pela primeira vez ao Sul do país, o Boi de Parintins. Há, portanto, um gesto político e simbólico importante nesse diálogo com manifestações culturais de origem popular.

No entanto, a encenação escolhida para a abertura revelou contradições. O desfile das escolas de samba, historicamente realizado no chão — espaço que simboliza sua origem popular — foi deslocado para um palco italiano montado na Pedreira Paulo Leminski. Essa decisão, somada à disposição de cadeiras que criava uma barreira física entre artistas e público, produziu um efeito de distanciamento que enfraqueceu a potência da proposta.

Além disso, o clima festivo da abertura acabou por diluir a densidade da “aula-show”. A ideia de uma palestra performativa, que poderia aprofundar questões fundamentais, se perdeu em meio a uma atmosfera mais celebratória do que reflexiva. E isso é especialmente sensível quando se trata de uma manifestação cultural nascida nas periferias, forjada pela população negra, cujas histórias seguem sendo, muitas vezes, apagadas ou subestimadas pela branquitude.

A estrutura dramatúrgica parecia inspirada no modelo do Boi de Parintins, em que os personagens — chamados de “itens” — organizam a narrativa, com destaque para o narrador que conduz a experiência. Aqui, Milton Cunha assume esse papel. No entanto, o formato adotado se aproximou mais de uma entrevista em formato “bate-bola”, em que perguntas e respostas conduzem a ação, do que de uma construção cênica mais orgânica.

Ainda assim, temas urgentes foram colocados em pauta: a sexualização dos corpos femininos, o preconceito religioso e as dificuldades enfrentadas por meninas e mulheres das próprias comunidades para ocuparem posições de destaque, como o posto de rainha de bateria.

Há, portanto, uma potência inegável no conteúdo — mas uma fragilidade na forma. A abertura do festival levanta uma questão essencial: como institucionalizar manifestações populares sem esvaziar sua força, sua origem e sua relação direta com o público?

Talvez a resposta esteja justamente em repensar o espaço — físico e simbólico — que essas expressões ocupam dentro de grandes eventos. Porque, quando a cultura que nasce do povo é afastada dele, algo fundamental se perde no caminho.

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