Festival de Curitiba
A sabedoria da leveza em cena
Por derradeiro, o espetáculo é lindo e dá vontade de o sentir várias vezes.
Foto: Divulgação
Por Leonardo Talarico
Assisti ao espetáculo A SABEDORIA DOS PAIS, no Teatro Guaíra, no dia 08 de abril, Festival de CURITIBA, mostra Lúcia Camargo.
A história narra a trajetória de um casal que, após 35 anos de casamento, decide se separar. Nos dez anos que se seguem, cada um busca novos caminhos.
Miguel Falabella (autor e diretor) produz um texto acessível, capaz de abarcar temas complexos (fora e dentro do casamento) com sensibilidade, esclarecimento e leveza. A linguagem é direta e produz comunicação imediata com o público.
Os assuntos profundos não carregam a plateia para pontos fixos de dor. No máximo, um esbarrão seguido de humor e afeto. Existe uma intenção clara de transcorrer a obra com leveza. E Falabella o faz com a maestria já conhecida nos diversos outros trabalhos, e com pleno proveito do talento de Natália do Vale e Herson Capri.
Grandes atores cênicos, dominam os diálogos sem a “memória do futuro”, estão vivos em cena após “morrerem na coxia”. Estão entregues à comunicação dos fatos com o público, sem exibicionismo e muito atentos ao tempo perfeito dos diálogos e falas isoladas (líricas).
Outra virtude dos atores e direção está na precisa articulação entre as dinâmicasdramáticas e cômicas (termo não mais em uso, mas entendo fácil para esclarecer – perdoem-me os acadêmicos – “sou poeta menor”).
Os atores não carregam nas tintas dramáticas para gerar sutileza à plateia. Sem deixar o público ter espaço ao sofrimento. É possível, aos distraídos, pensarem ser uma comédia (até romântica, se desejarmos entrar no campo da cafonice), mas a obra posta no sagrado palco do Guaíra oferece lições de vida em forma de distração e beleza cênica, recolhidas ao longo de décadas, e que colocam o ser humano instalados biograficamente na realidade, rememorando os valores fundante da vida. E tudo isso despretensiosamente. Todos saem melhor do espetáculo.
O Teatro, por algum tempo, entendeu ser uma arte maior. Por decorrente, impôs umaintelectualidade pela força acadêmica de como estar em cena, quando a força motriz da filosofia está cravada desdeprimórdios como o estudo que possui por escopo ensinar obem-viver. Ponto para o espetáculo.
O desenho de luz, belo e correto, acompanha o ritmo cênico sem maiores necessidades de recortes, haja vista a direção ter feito a escolha de não pesar a dramaturgia.
O figurino é variado, estético e compõe (com estudo) todas as diretrizes (inclusive, históricas) das personagens. Assim como o desenho de luz, não veste pontos dramáticos.
A trilha sonora traz leveza e auxilia a direção de não carregar nas tintas assuntos espinhosos.
A cenografia atende o critério estético, foca na mobilidade necessária para o transcorrer da obra e auxilia na compreensão da peça, por meio de painéis indicativos de tempo e imagens de posicionamentogeográfico.
Sobre isso, tenho um ponto: os painéis são facilitadores. Agem como narradores. Entretanto, o Teatro sempre restou referendado pela criatividade diante danatural escassez. Obviamente, não significa negar a evolução. A própria luz cênica desenvolveu a linguagem teatral. Entretanto, entendo saudável tomarmos cuidado com as facilidades (vejam o LEDS dominando o GRIDE).
Muito da criatividade cênica resulta da escassez. Posso trazer como exemplo a imagem do caixão apresentada em um dos painéis a indicar a morte da mãe de uma personagem na peça. É de fácil compreensão e está bonitaem cena. Respeito, portanto, a decisão do mestre Falabella.
Mas enquanto houver um lençol e uma vela haverá velório no Teatro. Enquanto houver a voz de uma atriz a dizer: “estamos em Roma”, Roma lá estará. Roma aparece na mente do público sem nada aparecer. É a transferência da ação gramatical à psicológica. E o público aprecia poder fazer parte do combinado teatral.
O Teatro é a contenção da modernidade técnica. Não podemos reclamar das telas utilizadas excessivamente pela sociedade e utilizar telas indicativas nos espetáculos.
O Teatro ainda é um lugar de encontro. Acrescento ser um lugar de encontro para jogarmos “imagem e ação”. Não facilitemos com recursos técnicos, mas com a criatividade e, sobretudo, com a crença na inteligência da plateia.
É um pormenor.
Por derradeiro, o espetáculo é lindo e dá vontade de o sentir várias vezes.

