Festival de Curitiba
“Orúko” ou a Emancipação que nasce enquanto o café é servido
“Orúko” nos convoca a uma constatação da negação de um Brasil negro que se dá até hoje, mas termina com uma sequência belíssima a partir da relação de mulheres negras da mesma família.
Foto: Divulgação
por Carlos Canarin (@ocanariocritico)
Um dos primeiros passos dentro do processo de outrificação de pessoas, digo, no processo de tornar seres humanos negros enquanto mercadorias, foi o de negar o seu nome original. Uma vez crentes de que tais populações eram “sem alma” e que a servidão seria legitimada pela fé cristã ~ note, ficções brancas ~, africanas(os) foram renomeados muitas vezes com nomes de santos católicos, sinalizando essa neurose colonial de que seria pela violência que se conquistaria o perdão de deus. Bom, difícil acreditar num deus que se alimenta de tanto sofrimento.
Constatar-se descendente de África é buscar constantemente um pertencimento que talvez jamais existirá, sobretudo pelo motivo porque é muito difícil precisar exatamente de qual território um ancestral veio, sintomas de políticas de esquecimento perpetradas pelo Estado desde a “abolição”. Sem documentos e arquivos, é como se ver num não-lugar onde não temos muito a que se apegar. Na linhagem da minha mãe, por exemplo, só conseguimos precisar alguma coisa sobre a mãe dela. O resto de sua árvore genealógica parece coberta de um blur.
Trabalhando essa premissa e seus entrecruzamentos, “Orúko” é um monólogo de Hilda Maretta que estreou em Curitiba dentro da Mostra Petrobrás de Novos Bifes, promovido pela Bife Seco. Acompanhada do músico Thayan Ribeiro, Hilda navega por memórias, narrativas ficcionais e uma relação mais próxima com o público para refletir sobre esses sequestros simbólicos e físicos da população negra em diáspora. A atriz alterna sua interpretação para o público em formato italiano mas também a algumas pessoas que estão sentadas dentro do cenário, que nos remete a uma casa de vó ~ a delicadeza das xícaras que me lembraram conchas é de encher os olhos.
De um modo geral, constatei a presença de um textocentrismo exacerbado, que por vezes nos cria imagens e imaginário, outras parece um acúmulo de informações com pouca síntese, que se atropelam durante a performance. Algo que poderia contribuir na criação de atmosfera e nas pausas e trocas de momentos do texto é a iluminação, que me pareceu muito aberta e em geral contrastava com as quebras do texto, ao invés de possivelmente jogar junto com a atriz. Ideias interessantes como o próprio ato de compartilhar um café com o público, e com isso as interações da performer conosco (que são momentos de respiro na narrativa), acabam não tendo tanta força para que o texto possa ser seguido à risca.
A direção assinada por Tatiana Henrique se mostra inventiva em dois pontos principais, que identifico estarem no final da peça. Se trata da sequência que nos remete à Congada, manifestação popular negra com maior difusão em Minas Gerais, cena que é construída como se a atriz se misturasse ao vídeo projetado, uma criação bastante sensível e que poderia ter sido usada mais vezes durante a peça como uma possível quebra da narrativa; e com um final cheio de beleza com as folhas amarelas, que me remete mais a Oxum do que na primeira vez que a orixá é citada em cena. São cenas que não necessitam de um didatismo pré-colocado, e nos emocionam pela aparente simplicidade dos afetos, que poderia ser uma opção a ser investigada na construção dramatúrgica.
Hilda se mostra mesmo assim uma artista muito entregue ao trabalho como um todo; ela não desiste das propostas, mesmo que muitas vezes esteja nela a missão de modular o tom das cenas. Nos números de canto e dança, miramos a memória grafada em seu corpo-voz que comunica antes mesmo de uma narrativa mais “elaborada”. É pela grafia da oralidade e da vivência negra que habita a pulsão cênica.
“Orúko” nos convoca a uma constatação da negação de um Brasil negro que se dá até hoje, mas termina com uma sequência belíssima a partir da relação de mulheres negras da mesma família. É preciso coragem para se chamar algo pelo nome. E disso Hilda tem de sobra.

