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Festival de Curitiba

Uma “Deriva” utópica enquanto a cidade te engole

Com um elenco que mistura diferentes corpos e lugares sociais, as narrativas trazidas parecem bater numa celebração a esses olhares singulares, mas sem expor as tensões que aí existem.

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Foto: Mateus Tropo

por Carlos Canarin (@ocanariocritico) 

O direito à cidade é um lugar teórico mas também poético quando pensamos em corpos marginalizados, ou racializados, ou historicamente minorizados. O centro urbano está na rota de colisão de diversas narrativas ~ a maioria delas antagônicas ~, sendo seu reflexo um caleidoscópio das disputas históricas que formam o território. Se pensamos em Curitiba por exemplo, esses pontos parecem se aflorar, pois paira no ar uma prática do silenciamento quanto àquilo que não se quer, mas se acaba tolerando, ao passo de que a conivência com as violências também é uma realidade.

Curitiba (também) é um território negro, muito mais negro do que se quer europeu. A primeira imagem que temos da cidade é um quadro de Debret, datado provavelmente de 1827. Numa das passagens do artista pela América do Sul, ele faz um retrato do Alto São Francisco, o que hoje seria o Palácio Garibaldi, no Largo da Ordem. Na imagem, vemos casinhas, a serra, e um único personagem humano, em primeiro plano, trabalhando. É uma pessoa negra. Em sua cabeça, um chapeuzinho vermelho, que pode ser interpretado como sinal de alforria. Se pudéssemos fazer uma análise mais semiótica, podemos afirmar que, mesmo sendo o único personagem humano “registrado”, na verdade a personagem principal da imagem é a pequena vila, iluminada, com mais traços de cor; ao contrário do trabalhador, escurecido, mesmo estando em primeiro plano.

Morando aqui, é fácil constatar esses escurecimentos em diversos níveis, sobretudo quando você é uma pessoa negra. Está no olhar, no modo como as pessoas falam contigo, como elas às vezes fingem não te ver, como elas te veem quando você é reconhecido. Mesmo sendo a capital do sul com maior percentual de população autodeclarada negra, a brancura tem seus refinamentos, numa tentativa de europeização estética. E isso que eu nem falei do Paranismo, que faz a manutenção de todo o ideal colonial, disfarçado de construção estética.

“Deriva”, mais recente espetáculo da Súbita Companhia, parece tentar sobrevoar as minúcias do centro da cidade, tentando reparar nos detalhes, nas arestas, naquilo que de tão corriqueiro passa batido. Com um elenco que mistura diferentes corpos e lugares sociais, as narrativas trazidas parecem bater numa celebração a esses olhares singulares, mas sem expor as tensões que aí existem. E penso ser urgente que essas feridas sejam tocadas, que elas sangrem, que transbordem o palco, que inundem as ruas e que uma retomada seja possível ~ não pelos corpos que historicamente dominam a cidade. A deriva, mesmo que poética em primeira instância, também é espaço de convocação para a mudança pela exposição de que, por mais que a rua tenha nosso rosto e nossa fala, ela constantemente é higienizada, invadida, agredida, menosprezada.

Como Leda Martins e Luiz Rufino nos fazem refletir pensando na imagem simbólica da encruzilhada, lugar de afetação e trânsito, e nos encantamentos provenientes da experiência negra e suas tecnologias de revide, parece distante pensar num retrato da cidade como uma contemplação onde tudo parece estar em diálogo ~ não está, a sobreposição é visível. Vivemos em disputa, em guerra, já nos falava Krenak. Se em outros momentos falei em fabulação, penso que aqui a estratégia poderia ser outra: a reinvenção pela retomada. 

Somado a isso, penso que alguns momentos do espetáculo esses conceitos foram em alguma medida acionados, mas estão sendo ditos por corpos brancos, que mesmo tendo outros marcadores de diferença, parece não existir embocadura nas falas. Quando usamos tais referenciais, estamos reverenciando a inteligência negra, a luta de tantas(os) intelectuais que fizeram de nossa experiência diária, ciência e demarcação de território. E existe contraste, sobretudo se novamente pensamos nos silenciamentos históricos lançados aos nossos corpos. Corpos que foram desumanizados, afastados dos espaços de saber e poder. E é pelo teatro ~ uma tecnologia de dominação colonial ~ que também temos a chance de viver e expandir nossa produção de subjetividade.

Numa alusão com o ofá, a flecha de Oxóssi, orixá da caça e das matas, gostaria de pensar por último na flecha como uma sabedoria ancestral que corta o tempo, num movimento de retroceder para impulsionar, tendo o passado como referência para a construção de outros futuros possíveis a partir do hoje, do agora. E quando o passado é sequestrado? O que nos agarramos, no presente, enquanto fisicalidade do pertencimento?

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