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Você Está Escutando? Um soco cênico que ecoa de Machado de Assis aos dias de hoje

O Coletivo Negro escancara a ferida do racismo estrutural, esse mecanismo perverso que coloca corpos negros em constante confronto. E, ao olhar para esse abismo, somos obrigados a admitir: passados mais de 120 anos, pouca coisa mudou.

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Foto: Jé Oliveira

Por Vanessa Ricardo

Antes de iniciar qualquer análise sobre Pai contra Mãe ou Você Está Escutando?, do Coletivo Negro, preciso falar de um lugar muito pessoal: a minha profunda admiração por essa companhia paulista capitaneada por Jé Oliveira, diretor e dramaturgo fundamental para a cena contemporânea brasileira.

Conheci Jé há cerca de nove anos, durante o Sesi de Dramaturgia um dos projetos mais potentes que já atravessei. Foi ali que algo mudou de forma irreversível no meu olhar. Jé me apresentou à dramaturgia negra, deslocando minhas referências de um teatro historicamente alicerçado no eurocentrismo. Foi, sem exagero, uma virada de chave.

O Coletivo Negro, que celebra 18 anos de trajetória, constrói uma pesquisa cênica sólida e necessária, atravessada pelas questões raciais e pela musicalidade como elemento estruturante da narrativa. Trabalhos como Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustância de Meninos e Homens, um tributo aos Racionais MC’s e Gota D’Água Preta, com a força monumental de Juçara Marçal, já apontavam para essa assinatura estética e política.

Agora, ao partir do conto Pai contra Mãe, de Machado de Assis (1906), escrito apenas dezoito anos após o fim oficial da escravidão, o grupo tensiona passado e presente de maneira brutal. Trata-se de um conto pouco difundido talvez não por acaso, considerando o histórico embranquecimento imposto à figura de Machado e as leituras equivocadas que o acusaram, por tanto tempo, de distanciamento das questões raciais. Basta mergulhar com atenção em sua obra para perceber o contrário: sua crítica à elite branca e à escravidão sempre esteve lá, irônica, sutil, mas incisiva.

Em cena, a narrativa ganha corpo na voz precisa e potente de Flávio Rodrigues, que conduz o público por um percurso incômodo: o que, afinal, mudou de 1906 para 2026?

O elenco é um presente. Há uma afinação rara, no canto, na presença, na escuta. Aysha Nascimento e Raphael Garcia são de uma delicadeza e potência que comovem. É bonito e necessário ver artistas negros ocupando o palco com tamanha densidade.

Este talvez seja um dos trabalhos mais refinados de Jé Oliveira. Refinado e, ao mesmo tempo, devastador. Um espetáculo que não pede licença: ele atravessa. Um verdadeiro soco no estômago. Um espetáculo “para branco ver” e escutar.

E aqui, a pergunta que ecoa da cena não é retórica: você está escutando?

Digo isso porque o confronto entre Pai e Mãe em cena não é ficção distante é cotidiano. É memória viva. Não consegui deixar de pensar na atriz e minha amiga Isabel Oliveira, que, há três anos, foi perseguida por um segurança de mercado. Em um ato de exaustão e protesto, tirou a roupa, permanecendo de calcinha e sutiã. Isabel estava na plateia naquele dia. Passou mal. Teve uma crise. Como se revivesse tudo outra vez. Três anos de terapia não foram suficientes para cicatrizar a ferida. O espetáculo arrancou o curativo.

A música, como já é marca do Coletivo Negro, é um dos pontos mais altos da encenação. Não é acessório é dramaturgia. Em cena, Lua Bernardo, Mauricio Pazz e Thiago Sonho não apenas acompanham: eles constroem sentido, tensionam, ampliam.

O figurino, assinado por Éder Lopes e executado por Nininha Lopes, é de uma elegância simbólica impressionante. Simples e grandioso. Evoca a presença de Machado de Assis como uma espécie de fantasma que observa ou talvez nos vigia. Há algo de profundamente inquietante nessa escolha: como se o autor nos lembrasse, em silêncio, que sua obra segue viva, pulsante e desconfortável.

O espetáculo se encerra de forma seca. Após os aplausos, não há palavras. O elenco se retira, deixando o público sozinho com o peso daquilo que acabou de presenciar. E talvez não houvesse outra forma de terminar.

Como no conto de Machado, fica a sentença: “Nem todas as crianças vingam, no Brasil, bateu-lhe o coração.”

O Coletivo Negro escancara a ferida do racismo estrutural, esse mecanismo perverso que coloca corpos negros em constante confronto. E, ao olhar para esse abismo, somos obrigados a admitir: passados mais de 120 anos, pouca coisa mudou.

Um espetáculo necessário. Urgente. E impossível de ignorar.

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