Festival de Curitiba
BRACE: o corpo como arquivo, resistência e convocação
BRACE oferece mais. Um dos espetáculos mais impactantes e generosos.
Foto: Albert Vidal
Por Leonardo Talarico
Edivaldo Ernesto, coreógrafo e bailarino,moçambicano, apresentou nesse domingo, 05 de abril, o seu espetáculo “BRACE”, inspirado no percurso dos Mwene, Mutapa e Zulos. BRACE possui, de largada, duas características: primeira, o espetáculo não espera a plateia. A obra passa como um trem que não recebe sinal de parada para subir. O público precisa pular para dentro da jornada. BRACE não aceita passividade.
Segunda: o espetáculo não se oferece à plateia. A performance retrata tamanha resistência e autonomia dos povos referidos que não entrega um caminho dramatúrgico cartesiano. Não há facilidades ou concessões de esclarecimento.Necessário estarmos atentos aos estímulos advindos de um corpo em extraordinário estado de inconstância e improvisação.
Mas não uma improvisação como elemento do jogo cênico, mas decorrente de um corpo tão repleto de vocabulário físico que escolhe a todo instante as pulsações e linguagens pertinentes. E o mais importante: pertencimento absoluto sobre o tema, sobre o lugar de fala e sobre a arte.
Por mero exercício, podemos rememorar algumas técnicas antropológicas utilizadas com maestria: equivalência, oposição, assimetria, desequilíbrio, energia mineral, energia animal, transferência do gesto para ação, onde todos os movimentos partem da coluna e a dilatação.
O protagonista em narrativa histórica dispara conhecimento por meio de falas corporais líricas e épicas. Tudo em articulação pulsante sem possibilidade de respiro para qualquer pessoa em estado de presença. O corpo não deixa escapar mínima possibilidade comunicativa: respiração, impacto, luta, dança contemporânea, movimentos originários, máscaras representativas.
Tudo sagrado, ritualizado e pertinente. Nada é gratuito, e repele a todo instante o famigerado caráter exótico comum daqueles que ousam apresentar narrativas africanas. BRACE é corpo original, decorrente de uma ancestralidade complexa que sai da carência e aporta na autonomia.
A densidade apresentada em cena estimula o público avançar em conhecimento porta a fora do Teatro. Vá (vamos) estudar! E nem pense ser curioso. Estudar aqui é a pontada como investigação de fôlego. Tudo no corpo de Ernesto é símbolo de tudo.
Os labores teatrais são determinantes. O desenho de luz é cenário e dramaturgia. Ilumina um corpo e produz ambiência em estado de arquivo. Ao público (a nós) cabe recolher o possível diante nossa ignorância e incapacidade de compreensão por nossa história social.
A multiplicidade dos pontos de luz na abertura da obra já indica que não haverá trilha a seguir. Figurino e adereços têm por função não atrapalhar o grito do corpo. A trilha sonora reforça pontos fulcrais e (também) advém do corpo em estado de força.
A contação de história não é linear. Que contação de história? Somos capazes (com esforço) de recolher ensinamentos da função do palco que é rememorar ao ser humano os valores fundantes da humanidade. BRACE oferece mais. Um dos espetáculos mais impactantes e generosos.

