Festival de Curitiba
Entre o impacto visual e a força da palavra: dois caminhos da cena contemporânea
Entre o espetáculo das imagens e o poder da palavra, Rodrigo Portella revela que o teatro ainda é capaz de nos atravessar por caminhos radicalmente distintos.
Foto: Annelize Tozetto
Por Vanessa Ricardo
Antes de tudo, é preciso destacar a versatilidade do diretor Rodrigo Portella. Não é coincidência sua presença em diferentes montagens e companhias, apenas no Festival de Curitiba, ele assina a direção de dois espetáculos de naturezas bastante distintas.
De um lado, (Um) Olhar Sobre a Cegueira, do Grupo Galpão, de Belo Horizonte, montagem que celebra os 40 anos de uma das companhias mais longevas do país. Com dramaturgia do próprio Portella, baseada na obra de José Saramago, que completa 30 anos, o espetáculo se destaca pela construção de imagens potentes, de tirar o fôlego. A encenação tensiona os limites do grupo, retirando-o da zona de conforto sem abandonar sua linguagem característica. O resultado é um dos trabalhos mais expressivos dessa trajetória prestes a completar quatro décadas.
Em contraponto, surge o solo O Motoqueiro no Globo da Morte, com dramaturgia de Leonardo Netto. Aqui, a grandiosidade visual dá lugar à contenção. Edu Moscovis interpreta Antônio, um matemático pacífico, sentado em uma cadeira, praticamente imóvel, com um copo d’água como único apoio cênico. A iluminação de Ana Luzia de Simoni envolve o ator e cria a sensação de que ele está cercado por holofotes, como se a imprensa o observasse atentamente.
A peça se estrutura como um depoimento. Antônio narra os acontecimentos enquanto a plateia é conduzida por imagens construídas exclusivamente pela palavra. É nesse ponto que o espetáculo encontra sua força: na capacidade de transformar narrativa em experiência sensorial. A imaginação do público é convocada de maneira rara, evidenciando tanto a potência da dramaturgia quanto a precisão da atuação de Moscovis.
Abro aqui um parêntese inevitável. A experiência remete ao solo sul-coreano Pansori Brecht UKCHUK-GA, apresentado na 22ª edição do festival, à época ainda chamado de Festival de Teatro de Curitiba, com a atriz JaRam Lee. Sozinha em cena, ao narrar a saga da Mãe Coragem de Bertolt Brecht, entre a guerra da Coreia e do Japão, foi capaz de criar um universo imagético tão potente que, mais de uma década depois, permanece como uma das experiências teatrais mais marcantes.
Retomando O Motoqueiro no Globo da Morte, o espetáculo evidencia que a violência não é exceção é constitutiva. Está posta, latente, e pode emergir de qualquer indivíduo, inclusive daqueles que se percebem como pacíficos. A aparente mansidão de Antônio não o exime dessa condição; ao contrário, a revela de maneira ainda mais perturbadora.
Entre o excesso imagético e a economia de recursos, Rodrigo Portella demonstra domínio sobre extremos. Em ambos os trabalhos, reafirma sua capacidade de conduzir experiências cênicas que, por caminhos distintos, atingem o espectador em cheio.

