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Festival de Curitiba

O tempo “Vinte” vezes retorcido

É um presente, uma reparação, um arquivo e uma oxigenação para mim (e para nós).

Publicado

em

Foto: Matheus Ribeiro

por Carlos Canarin (@ocanariocritico)

Por estar na universidade e ao mesmo tempo ser artista, percebo no dia a dia como as tensões se desenham dentro de espaços de formação e, ao mesmo tempo, o que esperam de você por ser pesquisador. Ah, e eu não falei o mais importante: sou uma pessoa negra habitando esses dois lugares, que por vezes parecem estar em disputa.

A universidade não foi feita para pessoas de grupos sociais subalternizados. A universidade não quer, ou não queria ter que tolerar, pessoas negras. E o pior (para eles): o que fazer quando uma pessoa racializada propõe uma pesquisa que fale sobre uma temática voltada à negritude? Pense numa sala majoritariamente branca, pense num colegiado branco, mesmo em cursos de artes. Ninguém sabe falar sobre sua pesquisa quando você aciona conceitos. Sua pesquisa parece subjetiva demais. Ninguém conhece determinado autor ~ tive um professor no segundo semestre do doutorado, branco, que sequer conhecia a obra de Sueli Carneiro. Na busca por fazer você se sentir em casa, mesmo sabendo que não está, dizem “vamos aprender muito com você, com sua pesquisa de negro, aliás é negro ou preto que fala?”. As pessoas têm medo do que falar, pois talvez isso não seja bem digerido por mim e a sala vire um debate sobre racismo. As pessoas têm medo do que você pode falar, já que com sua presença tudo virou uma questão de política de identidade. 

Gloria Anzaldúa questiona: por que escrever parece tão artificial para mim? Grada Kilomba analisa: brancos não te consideram inteligente o suficiente para estar na academia, te silenciam, negam o aprofundamento de seu trabalho. Ao mesmo passo que, para pares negros que não estão na universidade (e isso não é demérito algum), seu trabalho e sua fala parecem rebuscados demais, você se embranqueceu. Quem você pensa que é para escrever um trabalho, escrever uma crítica então? 

O trabalho de artistas-pesquisadores negras(os) é o de um/uma arqueólogo(a) que navega pelo tempo. Quando você se aproxima de leituras que jamais irão deixar que você veja as coisas como era antes, isso é um grande problema. Mas é um problema não para você, mas para os outros. Você não consegue mais olhar um espetáculo de teatro e não questionar a falta de pessoas negras; ou então, questiona: por que essa obra persiste numa imobilidade ou manutenção do olhar racista direcionado à negritude? quais as razões de um teatro branco e de seus artistas brancos numa cidade branca acharem que podem falar sobre tudo, como se estivessem numa novela da Glória Perez? 

Então chega um momento que, depois de teorizar o suficiente e muitas vezes sozinho, você resolve pensar num modo de traduzir seu conhecimento em linguagem e ação. E chegamos em “Vinte!”. Um espetáculo que navega pela arqueologia da espiral. Que propõe uma encruzilhada em cena para unir presente, passado e futuro e a celebração da arte e da resistência negra, falando também sobre as tensões que estão intrínsecas ao nosso fazer de hoje ou o de cem anos atrás. Utilizando a trajetória da Companhia Negra de Revistas (1926), liderada por De Chocolat, o trabalho cria uma fenda no espaço-tempo para reverenciar a trajetória artística e intelectual da população negra no Brasil. Mais que uma aula, é o dever de memória. É aquilo que por vezes é escondido, esquecido, apagado da história oficial. Elas e eles se perguntam: o que temos de parecido com artistas negras(os) de cem anos atrás, mas também o que nos diferencia? Quais as estratégias, refinamentos, soluções, engenharias feitas pelo teatro de ontem e como aprender com o que já foi feito, tendo isso como um farol de referência? Qual o legado que deixaremos para negras(os) de 2126? 

Depois dessas digressões ~ e peço desculpas por isso, mas talvez seja inevitável todas as fagulhas explodirem em texto nesse exato momento, a peça me tocou em vários sentidos, me vi literalmente em cena ~ é preciso também comentar sobre a qualidade técnica do trabalho, cujo elenco é formado por AfroFlor, Tainah Longras (também dramaturga), Muato (também diretor musical) e Mauricio Lima (também diretor). Interessante pensar como vários momentos dialogam com outras obras da ordem do dia do teatro negro, como por exemplo as cenas ~ incríveis ~ de canto de AfroFlor, que me lembram a “Medeia Negra” de Marcia Limma. Um canto próximo da dor, mesmo que belo, é um rasgo. A dramaturgia é um prato cheio para quem gosta de jogo de palavras, construções imagéticas (sem a utilização de um cenário propriamente), pautado na relação da(o) performer com o público e quais os desenhos sonoros possíveis que interseccionam modos de fala não esperados, mais próximos de uma oralitura, uma linguística da memória e da existência negra ~ que é plural. Comentei sobre o canto, e é impossível não estender isso às composições musicais, que não estão somente para mostrar habilidades, mas sim transformam a música em dramaturgia referencial, em arquivo vivo de um tempo passado mas que se parece muito com o hoje e o que vem depois.

Anda me interessando o inesperado, o não-dito, a subversão dentro de uma lógica de imaginário através do teatro. E “Vinte!” faz isso brilhantemente: expondo as tensões, referenciando o passado, mas reelaborando as imagens de controle, se interessando nas rachaduras do tempo, no que ainda persiste, atuando na brecha, na fresta, depois da epiderme. É um presente, uma reparação, um arquivo e uma oxigenação para mim (e para nós).

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