Festival de Curitiba
Enterrada no tempo, à espera de um dia feliz
E é nesse vazio que emerge uma atuação arrebatadora de Patrícia Selonk ~ precisa, sufocante, de tirar o fôlego.
Foto: Paulo de Moraes
Por Vanessa Ricardo
Presa na relação. Em silêncios confrangedores.
O marido está ali como mero espectador ~ respostas curtas, quase fora do ar. A presença dele não sustenta, não ampara, apenas existe.
O passado surge como lembrança de dias felizes. Mas tão pouco , quase nada foi feito.
Ela não consegue largar, apesar do desconforto. Permanece. Espera que algo aconteça, que alguma ruptura venha de fora. Mas não vem. E enquanto a mudança não chega, ela segue habitando esse estado de espera, presa a uma realidade que não se transforma.
Verborrágica, despeja palavras vazias ~ fala para si mesma, num esforço desesperado de fazer o tempo andar, de provocar algum acontecimento. Tenta se convencer: hoje será um dia feliz.
Mas a noite não vem.
O dia demora demais para acabar.
Enterrada.
No primeiro ato, até a cintura ~ ainda com acesso à bolsa, aos objetos: escova de dentes, pente, uma arma. Pequenos vestígios de autonomia, de controle, de cotidiano.
No segundo ato, resta apenas a cabeça. Enterrada até o pescoço.
O passado é refúgio. Ou prisão.
Uma mulher que se doou tanto que já não parece restar nada de si. Ainda assim, isso é apenas suposição ~ Beckett não explica como ela chegou ali. E talvez nem importe. O que importa é que ela está.
E permanece.
A trilha sonora, criada por Ricco Viana, tensa intensifica o segundo ato, adicionando camadas de angústia à cena. Com tão pouco, constrói-se muito.
E é nesse vazio que emerge uma atuação arrebatadora de Patrícia Selonk ~ precisa, sufocante, de tirar o fôlego.

