Festival de Curitiba
Teatro como memória viva: a força ancestral da Carroça de Mamulengos
A peça Histórias de Teatro e Circo é um acontecimento cultural que apresenta ao povo brasileiro a tradição recolhida e praticada pela Carroça de Mamulengos por gerações.
Foto: Gabriela Mendes
Por Leonardo Talarico
A Carroça de Mamulengos celebra 50 (cinquenta) anos com três gerações da família Gomide-França. O elenco – de seis meses a setenta anos – promove meio século de tradição saltimbanca. Trata-se de uma das companhias mais longevas do país.
O espetáculo apresentado no Festival de Curitiba, no Teatro do Bom Jesus, oferece estrutura cultural fundante. É obra que recoloca o “teatro no trilho”, conforme lição de Fernanda Montenegro. A melhor definição de ser humano afirma ser o homem “aquele que esquece”. Esquece o quê? Os valores fundantes existenciais. E o teatro – como ninfa – tem por função primeira rememorar esses valores basilares.
A peça Histórias de Teatro e Circo é um acontecimento cultural que apresenta ao povo brasileiro a tradição recolhida e praticada pela Carroça de Mamulengos por gerações.
Vivemos, na sociedade contemporânea, uma crise da afetividade — no sentido de não sermos capazes de diferenciar sentimentos. O espetáculo traz à baila múltiplas percepções, virtudes e resgata uma importante “inocência cênica”. É teatro sem bula. Não precisa explicar.
Todo artista tem por escopo a comunicação horizontal, destinada ao alinhamento com a plateia. As falas, o elenco infantil gracioso, a semiótica presente, os bonecos e as cantorias resgatam no público virtudes adormecidas na sociedade hodierna.
Em uma realidade onde artistas inflam discursos para justificar pretensiosamente suas performances, a Carroça de Mamulengos simplesmente humaniza a relação de cumplicidade entre artistas e plateia — sem dominância, verticalismo e, sobretudo, falsa intelectualidade.
Os ensinamentos dos valores fundantes de uma biografia honrada alinham-se aos elementos muito bem estruturados da companhia e geram disponibilidade em uma plateia aberta ao afeto. Todos regressam à infância e encontram, na encenação, momentos de sua própria história.
A peça coloca (mesmo sem desejar) toda a soberba artística em seu devido lugar. Trata-se de um grande acerto do Festival de Curitiba.
O espetáculo é uma tertúlia contundente sobre a identidade coletiva brasileira. A contação de histórias, por seus diversos meios, formas e articulações, apresenta-se extremamente bem executada — sobretudo na perspectiva “brincante”.
O cenário e os adereços são muito bem acabados e possuem dois claros objetivos: construir espaços e produzir eventos simbólicos. O figurino ultrapassa a mera vestimenta e compõe a dramaturgia. O acabamento é exemplar. Tudo está a serviço da obra.
A direção de movimento caminha para um destino preciso. A pulsação cede momentos oportunos para importantes reflexões emocionais. Tudo é símbolo de tudo — e o espetáculo oferece camadas e matizes esquecidas pela vida e pela arte contemporânea.
A iluminação recorta bem as cenas, e as luzes de ribalta ambientam um espaço lúdico. Os elementos musicais potencializam a cena e constroem, ao lado de outros recursos, uma poética sensível.
É um espetáculo merecedor de todo reconhecimento. Formador ético — seja pela execução, seja pelo resguardo de uma das tradições mais relevantes de diversos povos brasileiros.
Um acontecimento artístico histórico.

