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No meio da encruzilhada, uma “Boca” faminta pelo banquete da liberdade

“A boca que tudo come tem fome” dá mais um passo na investigação poética e política sobre a temática, repetindo novamente a parceria do grupo com Dione Carlos e inserindo novos rostos no elenco

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em

por Carlos Canarin (@ocanariocritico)

A Cia de Teatro de Heliópolis (SP) vem se dedicando a uma pesquisa de linguagem voltada principalmente à violência como um pilar da sociedade brasileira, incluindo aqui a experiência do encarceramento em massa cujo principal alvo é a população negra, sobretudo jovem, periférica e masculina (mas não somente). Em diálogo direto com o anterior e premiado “Cárcere” (2022), “A boca que tudo come tem fome” dá mais um passo na investigação poética e política sobre a temática, repetindo novamente a parceria do grupo com Dione Carlos e inserindo novos rostos no elenco.

Se em “Cárcere” o ponto central eram mães que lutavam pela liberdade de seus filhos, utilizando como símbolo e representação a figura de Iansã, em “A Boca” acompanhamos a saída da privação da liberdade e seus constantes desafios de ressocialização e a construção de um futuro, agora sob o assentamento de Exú. No prólogo do espetáculo, me peguei lembrando das palavras de Leda Martins, que comenta sobre a cultura negra diaspórica nas Américas ser uma cultura da dupla-voz, da duplicidade, do dizer algo querendo dizer outra coisa, de uma teatralidade do segredo ~ tudo isso tendo Exú como guia. Exú, o orixá da comunicação, da transformação e das possibilidades, que assim como outros aspectos das religiosidades afrobrasileiras é demonizado, visto como uma figura do mal a partir da moral cristã. Isso em certa medida é posto no espetáculo também, quando vemos em cena um embate entre personagens que são feitos no santo, enquanto outros são evangélicos e o viraram a partir da experiência do cárcere, vide a presença massiva do protestantismo nas prisões e a promessa de salvação pela conversão.

Ao entrarmos no teatro já somos aguçados pelo cenário, assinado por Telumi Hellen, ao encontramos o palco alagado ~ e isso parece ser um desafio interessante posto pela cenografia e que acaba casando super bem com a iluminação, proposta por Miguel Rocha e Toninho Rodrigues. A encenação de Miguel também potencializa a utilização de um elemento pouco usual em cena (afinal, imagina o trabalho que foi fazer isso!) com desenhos dos corpos do elenco em relação ao espaço, orquestrados na maior parte das cenas (especialmente quando todos estão juntos) com refinamento e beleza, promovendo momentos onde as formas dos corpos com a água são refletidos em diferentes espaços do teatro. Os elementos são em geral bem usados, não sendo meramente acessórios ou colocados para uma estética fixa, sendo na verdade problemas que dão gosto de serem solucionados/experimentados ali na nossa frente. Isso sinaliza a qualidade técnica presente na produção como um todo.

Comento especialmente dos desenhos, formas e proposições imagéticas pois percebo haver duas instâncias que me parecem contrastar na estrutura da peça: a dramaturgia enquanto palavra e a dramaturgia visual. E penso que em vários momentos do espetáculo poderia ser mais interessante traduzir tanto texto para uma dramaturgia do corpo, afinal são tantos momentos de fala que parecem se repetir de forma arrastada e assim criam uma estrutura por vezes exaustiva e que já se pode imaginar ou esperar pelo o que vai ser verbalizado. E daí lembro por exemplo de momentos fortes onde existe uma coralidade a partir da imagem, uma corporeidade coletiva do elenco que é por si só incrível e que comunica assim como o texto enquanto palavra. Esses momentos de uma dramaturgia visual me lembra o espetáculo “Quando o discurso autoriza a bárbarie”, praticamente sem falas e pautado no corpo, cuja mensagem é tão densa e profunda quanto a embocadura da palavra em cena. Sem querer fazer comparações entre os trabalhos, mas percebendo como essa pesquisa está sim em relação de uma obra para outra.

Além disso, percebo que essa sequência de falas sobre a reinserção social principalmente carregam uma carga dramática e de denúncia sobre os rastros do encarceramento que datam na verdade da escravização; por outro lado, ao nos assentarmos em Exu como força motriz, penso nas possibilidades de futuro como algo que fica sem uma resposta, mesmo que provisória. A violência está mais uma vez exposta ~ mas como rompê-la? Como imaginar um recomeço, que mesmo utópico à primeira vista, possa nos levar a criar, investigar, fabular outras histórias que ainda não foram contadas? Uma vez na encruzilhada, nos deparamos a diferentes caminhos que podem ser seguidos ~ em algum deles pode existir um sorriso em meio à tanta ruína.

 

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