Festival de Curitiba
Carnavalizar o Teatro
Nessa linha de pensamento, lembrei de Amir Haddad (mestre e amigo) sobre a necessidade de carnavalizarmos o Teatro. A lição de Amir propõe para o palco a liberdade, ausência hierárquica e imprime as delícias do folião e da rua (Tá na Rua).
Foto: LinaSumizono
Leonardo Talarico
A festa de abertura da 34ª edição do Festival de Curitiba aconteceu nesta segunda-feira, 30 de março, na Pedreira Paulo Leminski, com a apresentação da aula-show “Samba: as escolas e suas narrativas”, criada por Milton Cunha especialmente para o festival, e contou com a participação de representantes das 14 agremiações cariocas e componentes da velha guarda das agremiações locais.
Na coletiva de imprensa, ocorrida pela manhã, o artista e professor Milton Cunha esclareceu sobre o desenvolvimento dos desfiles, ao longo das décadas, sob a perspectiva da narrativa (única).
Ao explicar as bases da sua apresentação, enfatizou que o “FESTIVAL DE CURITIBA está comprando uma briga” eressaltou que “se você não gritar e espernear, o racismo estrutural sufoca tudo o que é popular. A resistência é feroz e violenta”.
Milton declarou terem as escolas de samba desenvolvidoum formato próprio para contar histórias. Trata-se de narrativa exclusiva.
Nessa linha de pensamento, lembrei de Amir Haddad (mestre e amigo) sobre a necessidade de carnavalizarmos o Teatro. A lição de Amir propõe para o palco a liberdade, ausência hierárquica e imprime as delícias do folião e da rua (Tá na Rua).
Joãosinho Trinta, por sua vez, teatralizou o Carnaval(alguns instantes), ao lado do próprio Haddad, ao inserir marcas cênicas e interpretações mais verticais no consagrado desfile.
Fato: teatralizar o Carnaval e carnavalizar o Teatro produz interessantes resultados artísticos (e repercussões sociais).
Mas será possível analisarmos parte dessa proposição(CARNAVALIZAR O TEATRO) à luz da força estrutural mencionada por Cunha?
A carnavalização do Teatro não implica debruçarmos atenção também sobre as forças invisíveis que se apropriam do “palco italiano”?
É dúvida sem inclinações.
É dúvida honesta.
A carnavalização do Teatro não passaria (assim o fosse) pela reacomodação dos protagonistas cênicos suturados por um sistema cujo objetivo é a manutenção do status quo da classe cênica dominante?
À guisa de exemplo, basta mero pestanejar para colocarmos o Teatro e o Carnaval em “prateleiras”narrativas distintas.
Não é tão difícil aferir a explícita distribuição das castas sociais entre elas.
O Teatro, por algum acaso, caminha em direção ao mesmo estado de apropriação cultural da Ópera?
Esse levante de ideias não declara a inexistência de pontos de contato com narrativas e personagens próprias dos “povos esquecidos”.
Daí o nome: exceção.
Mas, sob uma perspectiva de dominação de classe, onde está posicionado o Teatro?
A verticalização de linguagem e acesso é algo a ser pensado na estrutura hodierna da atividade cênica?
A articulação carnaval-teatro realizada pelo Festival de Curitiba foi muito feliz e pontual (assim como o fez no ano passado com outra narrativa popular).

